Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

O ANTIGO REINO DO SIÃO

AYUTTHAYA



Dizem os livros e a Internet que o primeiro português chegou aqui há 500 anos. Eu cheguei um bocado depois, mas ainda assim penso que vim bem a tempo, ou quase. Apesar do nome até nem ser nada familiar, a verdade é que a cidade de Ayutthaya foi a capital do poderoso Reino do Sião fundado em 1351. Para além de terem sido os primeiros europeus em Ayutthaya, os portugueses gozaram de uma relação bastante simpática com o Sião, o que lhes permitiu terem acesso a uma parte do território que usaram para construir um povoado e uma igreja católica. Depois de uns bons quilómetros a pedalar à chapa do sol, descobrimos que afinal a igreja agora é pouco mais do que um monte de pedras mal consertadas ao qual vou chamar de “ruínas”. Mas ruínas é o que não falta hoje em Ayutthaya, em 1767 o exército birmanês, depois de anteriores invasões fracassadas, conseguiu finalmente conquistar a cidade, deixando-a praticamente em destroços. Perdeu-se então aquela que era considerada a grande potência do Sudeste Asiático que, com a sua beleza, havia deixado rendidos muitos ocidentais que ali jogavam as relações comerciais dos seus países. E por isso dizia antes que “quase” vim bem a tempo, não tivessem os birmaneses chegado primeiro. Ainda assim, e com o estatuto de Património da Humanidade a ajudar-me a confirmar esta afirmação, Ayutthaya é um lugar muito agradável e bastante merecedor de uma visita. Dos sei lá quantos templos e ruínas que aqui visitámos, gostei mais do Wat Mahathat, que tem uma cabeça de Buda numa árvore que ninguém sabe ao certo como foi lá parar, e do Wat Ratchaburana, de arquitectura Khmer e também impressionante pela sua dimensão. Gostei também do Wat Chaiwatthanaram porque é bonito e fica bem nas fotografias. Depois do pôr-do-sol, o mercado nocturno de Hua Raw foi paragem obrigatória durante a nossa estadia em Ayutthaya, a respectiva cerveja tailandesa a acompanhar o prato de marisco e a vista para o rio Lopburi, carregaram-nos as baterias que bem tivemos de usar no dia seguinte, ou nos dias seguintes.

Domingo, 7 de Novembro de 2010

COM VISTA PARA O ARARAT

ARMÉNIA



Ouvi dizer que foi aqui que pela primeira vez o Cristianismo foi oficialmente adoptado. Ouvi também dizer que foi no Monte Ararat que a Arca de Noé ficou encalhada após o grande dilúvio. Feitas as contas, haviam motivos de sobra para uma escapadela à região do Cáucaso.
A religião nunca chegou a estar perto de me ter entre mãos, no entanto é a ela que muito do tempo das minhas viagens é dedicado. Aprendi a respeitá-la. Tento agora acreditar que não é dela grande parte da culpa de ainda estarmos tão distantes uns dos outros. Na Arménia existe a Igreja Apostólica, apesar de semelhante, tem algumas convicções que a separam das irmãs Católica e Ortodoxa. Os mosteiros e igrejas representam pontos de bastante relevância numa visita ao país. O mosteiro de Khor Virap foi talvez o que mais gostei de conhecer, não só pela sua história mas também pela sua localização. Situa-se perto da fronteira com a Turquia e tem o Monte Ararat como pano de fundo. O Ararat apesar de estar situado em território turco, é o grande símbolo da nação arménia. De resto o Ararat acompanhou-nos em muitos diferentes pontos da nossa viagem, acho que agora é o meu monte preferido. Também o povo da Arménia é agora um dos meus preferidos, tenho novos amigos arménios que sei que vou voltar a ver.
A Arménia tem no entanto relações difíceis com alguns dos seus países vizinhos. O caso da Turquia é antigo, mas o tempo pouco o tem conseguido fazer esquecer. Entre 1915 e 1923, perto do fim do Império Otomano, milhões de arménios foram mortos e deportados pelos turcos, a Turquia ainda hoje nega o genocídio e as relações politicas entre os dois países continuam muito complicadas, incluindo fronteiras encerradas. Do outro lado, o Azerbaijão, é um caso não menos complicado, até pelo contrário, as tensões são bastante mais recentes e é bem perceptível que a empatia entre os povos está longe de ser saudável. O caso do Azerbaijão parece ser bem mais problemático, para além das inevitáveis questões politicas, a relação social é venenosa e muito tem que pedalar antes de se diluir. Na base do problema está Nagorno-Karabakh. Depois da queda da União Soviética, da qual tanto a Arménia como o Azerbaijão faziam parte, a região de Nagorno-Karabakh voltou a entrar em disputa entre os dois países, num conflito militar que aconteceu durante grande parte dos anos 90. Geograficamente, a região de Karabakh situa-se dentro do Azerbaijão, fazendo também fronteira a sul com o Irão. Apesar de perto não chega a fazer fronteira com a Arménia, no entanto a maioria da sua população é arménia e isso está na base da disputa. Na verdade Nagorno-Karabakh autoproclamou-se de República independente mas até hoje nenhum outro país (incluindo a Arménia) o reconheceu. É por isso uma das Repúblicas mais curiosas de que já ouvi falar. Toda esta situação domina grande parte da actual agenda política na Arménia, sendo que um reconhecimento da República de Nagorno-Karabakh por parte da Arménia poderia envolver os dois países em novo conflito armado.
Mas de volta aos nossos humildes passeios, lembrei-me que aquele dia na região de Vayots Dzor foi adorável, primeiro a visita a Noravank (novo mosteiro), depois a paragem para um almoço no melhor restaurante de sempre! Numa pequena gruta de montanha à beira de um riacho virgem… e fico por aqui caso contrário teria de acrescentar mais uma dúzia de linhas. Depois parámos em Areni, lugar onde crescem umas senhoras uvas, e vai na sequência um senhor vinho que no meio do prova aqui, prova ali, me deixou bem disposto para o resto do dia… e noite. O dono da fábrica dos vinhos foi o nosso guia durante a visita, ao ver-me pegar numa rolha de garrafa adiantou-se dizendo que ali só tinham rolhas de cortiça, importadas de Portugal, nada de usar plástico. Orgulhoso, aprontei-me a explicar que Portugal é o meu país.
De volta a Erevan, chegávamos a casa da Tatevik, já a pensar (mal) que o dia estava feito, quando nos cruzámos na rua com uma festa de anos de um menino vizinho no bairro. E já está, dali não me deixaram passar. Já acomodado na mesa dos homens, de copos no ar a entornar vodka à espera do bota a baixo, eu arranhava no inglês, que ninguém entendia, eles entre o russo e o arménio, que eu não entendia, lá acabámos por ficar satisfeitos quando um deles se virou e disse: Figo, Ronaldo, Eusébio… dali para a frente só me lembro da dor de cabeça na manhã seguinte.
Vanadzor foi o destino seguinte, estava curioso para saber como é a vida longe da capital, sabia que a comunicação iria ser talvez complicada, mas tinha a certeza que com a felicidade dos arménios em nos ter e a vontade em interagir connosco, todas essas dificuldades se ultrapassavam com alguma facilidade, e assim aconteceu. Passámos duas noites em Vanadzor, a segunda maior cidade da Arménia, mas ainda muito distante da realidade da capital Erevan, com serviços, que são agora básicos no seio das sociedades modernas, ainda bastante pouco desenvolvidos. Este foi o ponto de partida para a visita aos mosteiros de Sanahin e de Haghpat onde tivemos a sorte de encontrar um padre ex-refugiado nos Estados Unidos que nos explicou as mais relevantes diferenças entre Católicos e Apostólicos. Os mosteiros situam-se no desfiladeiro Debed, com vistas lindíssimas e onde me deu vontade de ficar perdido por uma noite.
Durante toda a viagem na Arménia não me apercebi de nenhuma referência a Calouste Gulbenkian, o senhor de origem arménia que tamanho tesouro ofereceu a Portugal. Pensei que talvez fosse boa altura para nós, Portugal, contribuirmos com alguma dessa riqueza cultural, ajudando a que este país se desenvolva e modernize mais rapidamente.
Revejo-me agora sentado perto da nossa porta de embarque no aeroporto internacional de Erevan, virado para a janela a olhar para o pico branco do Ararat. Senti que definitivamente tinha percebido como é possível um monte poder ter tanto significado para uma nação. Até à próxima Ararat! Porque agora sabemos que “Arménia” não é só o nome daquela equipa de futebol que vai embora com meia dúzia de bolas no saco quando joga contra Portugal.

Quinta-feira, 3 de Junho de 2010

O VELHO CASTELO E A NOVA CAPITAL

CARDIFF



O sol até nem tem sido mauzinho para nós aqui na ilha da chuva, e uma escapadinha ao outro lado do canal de Bristol veio mesmo calhar. Foi a primeira vez que metemos os pés no País de Gales e as suspeitas ficaram confirmadas, o lugar é mesmo verde. Cardiff é a mais nova capital da Europa, com certeza deverá ser também uma das mais modestas e pacatas. Começamos por visitar o Castelo, este foi construído no local onde começou por existir um forte romano há sei lá quantos anos atrás. O Castelo de Cardiff é um dos maiores da Grã-Bretanha e a visita fez-se bem agradável. Depois da visita prolongada ao Castelo e ao museu do soldado, queríamos ver a rua, ver as pessoas e tentar ouvir um pouco de língua galesa. Não foi fácil ouvir galês em Cardiff, mas ouvimos o suficiente para perceber que não percebíamos nem um pouco de uma palavra. Mais um passeio aqui e outro ali e num instante já tínhamos corrido as ruas da cidade quase todas. Ficou só a faltar acabar o dia ao balcão de um daqueles pubs cheios de cerveja e publicidade a jogos de rugby e de futebol, a companhia era boa e desta vez, apesar de não ter sido por goleada, vencemos o cansaço! Mais uma, por favor!

Segunda-feira, 8 de Março de 2010

SÓ FALTAM DEDOS NOVOS

BRISTOL



Emigrante. É o que eu sou agora. Antes dizia que era viajante. Ou turista, andava a ver coisas. Mas agora é diferente. Acho que gostava mais de continuar a ser viajante, mas não pode ser. Ou melhor, se calhar até pode, só que ainda não descobri como. Não sei porquê, mas fico com a sensação de que ser emigrante soa mais parolo do que ser viajante. Viajante soa melhor. Mas agora, é emigrante que eu sou. Hoje meti-me à estrada pela primeira vez, com o meu novo carro de guiador ao contrário, até me safei bem nas rotundas e tudo. Mas o melhor está em casa, essa coisa ai em cima, de botões grandes brancos e outros pequenos pretos. Acho que não está afinado (acho que tenho a certeza que não está), mas mesmo assim é tão bom brincar com ele. Agora só tenho que arranjar uns dedos melhores e lá vou eu!

Sábado, 1 de Agosto de 2009

A PRAÇA DURBAR DE PATAN

CATMANDU



Depois de um dia de viagem um tanto ou quanto atribulado, chegámos finalmente a Catmandu. Taxi! Thamel, Please! Bem, depois percebi que mesmo que não tivesse dito Thamel, o senhor taxista saberia certamente que aquele era o lugar da entrega. Thamel é um Mundo à parte dentro de Catmandu. É o mundo dos turistas. À primeira vista pareceu-nos bem, à segunda nem por isso. Se por um lado poderíamos aproveitar para desfrutar de algum conforto, comidinha mais parecida com o que estamos habituados e uma boa garrafa de cerveja, por outro sentimos alguma inquietação por nos estarmos a refugiar num lugar que nada tem a ver com o que realmente é o Nepal. Mas algumas ruas adiante e logo a coisa muda de cara. Sim, estávamos mesmo no país que pensávamos, pobre e de desenvolvimento bastante tardio. Caminhámos bastante, de Stupa em Stupa, de Templo em Templo. Era tudo novo aos nossos olhos. De entre todas as coisas que visitámos em Catmandu, a Praça de Durbar, em Patan, foi a que mais gostámos de ver. Já passaram alguns meses (quase um ano) desde que fizemos a viagem ao Nepal, como tal as emoções encontraram já algum espaço de fuga, o que me impede de continuar este texto como queria.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

BUDAPESTE "O FILME"

REALIZAÇÃO DE WALTER CARVALHO



Há quatro anos atrás, quando comecei este blogue, escrevi sobre o romance de Chico Buarque "Budapeste". Se bem me lembro, esta obra teve a particularidade de ser escrita ainda antes de Chico Buarque ter visitado a capital húngara pela primeira vez. Eu próprio também o li antes de ir a Budapeste pela primeira vez. Ai comecei a imaginar as ruas de Budapeste pelas palavras do imaginário de Chico Buarque. Agora, quando guardo muitas (boas e eternas) recordações da cidade, espero até estar a deliciar-me com o filme baseado no romance de Chico Buarque e realizado por Walter Carvalho que estreia agora nas salas de cinema brasileiras. Que chegue depressa aqui ao outro lado do mar!

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

ADEUS AO CARIL

NOVA DELI



Esta foi a segunda vez que cheguei a Nova Deli… A primeira já lá vai há alguns meses quando pela primeira vez aterrei na Índia. Nessa altura parecia que tinha acabado de me infiltrar num qualquer filme de rodagem vertiginosa, cheio de acção, sem violência. Era tudo tão distante que por momentos tive dificuldade em perceber que era eu mesmo que estava naquela “rodagem”. Foi o início da descoberta de um estilo de vida que jamais havia encontrado, ou até mesmo imaginado que viesse a encontrar. A Índia deu-me a conhecer muitas coisas, tal como pensei que iria acontecer, todavia sentir a grandeza da sua cultura e religiões foi algo de verdadeiramente entusiasmante. Andar na Índia nem sempre foi fácil, e acho mesmo que andar aqui poderia ser um autêntico pesadelo para muitas pessoas que estejam habituadas ao conforto ocidental, mas a emoção que senti ao penetrar neste universo foi de tal forma intensa que me deixa prever que irei ter algumas dificuldades em descobrir outra qualquer emoção comparável durante outras tantas visitas que espero ainda conseguir fazer a outros locais deste Mundo. A Índia obriga-nos a repensar formas de estar e actuar, nem que seja apenas enquanto cá estamos. Hoje, em Nova Deli, sinto uma enorme vontade de regressar à Europa, mas sei que não vou precisar de muito tempo na Europa para sentir uma enorme vontade de regressar à Índia. Digamos que não há lugares perfeitos, sem dúvida que não há lugares perfeitos. Mas voltando ao inicio da segunda vez que cheguei a Nova Deli. A viagem durou a noite toda, de comboio, partimos de Amritsar às primeiras horas do dia e chegámos à estação de Nova Deli já a tarde tinha substituído a manhã. Nessa altura a estação estava repleta de pessoas, acotovelavam-se ao cruzarem-se umas pelas outras para ganharem espaço para passar. Para mim já não era novo, já não era um filme de rodagem vertiginosa, mas sim o dia-a-dia de um país com dificuldades em gerir uma população que é quase duas vezes maior do que a soma da população de todos os países da Europa. Desde o primeiro dia que me questiono acerca do que se poderá passar para que sempre, a toda a hora, os comboios na Índia estejam lotados de passageiros. Depois de tentar umas seis opções de estadia, lá encontrámos aquele que ia ser o nosso quarto durante os últimos dias na Índia. Os empregados mostravam ainda mais atenção e simpatia do que em qualquer outro lugar antes, ofereciam chá, insistentemente subiam ao nosso quarto para perguntar se estava tudo bem. Enfim, parecia que nos queriam ver muitíssimo satisfeitos, faziam-no como se nós não soubéssemos que o faziam à procura de uma gorjeta perdida nos nossos bolsos. O cenário mudava sempre que descobriam que a gorjeta teimava a não aparecer. Em Nova Deli não é tão fácil negociar, muitas vezes ficámos a ver os táxis irem embora depois de ouvirem a nossa oferta. É certo que também estávamos no final da viagem e pouco mais tínhamos para gastar, mas mesmo assim fiquei com ideia de que a exigência é maior do que noutros lugares. Começámos por visitar a zona de “Connaught Place” onde nos cruzámos com as classes de indianos mais privilegiadas, aqueles que falam inglês entre si e parecem completamente distantes da realidade do seu país. Cafés e restaurantes de luxo que estão apenas ao alcance de alguns. No coração de “Connaught Place” situa-se o “Central Park” de Nova Deli, com tudo isto quase me esqueci que ainda estava na Índia. No dia seguinte fomos à cidade velha, zona maioritariamente muçulmana. Visitámos a enorme “Jama Masjid”, se não me engano a maior mosquita da Índia e depois fomos até ao Forte Vermelho. Daqui voltámos para o Hotel de Metro, e mais uma vez quase me esquecia que ainda estava na Índia. Limpinho, novo, e acima de tudo com espaço! O Metro em Nova Deli tem espaço, e quanto a mim só vejo isso ser possível caso muitas outras pessoas sejam impedidas de entrar. Os restantes dias foram passados de Bazar em Bazar já sem grande paciência para mais templos ou outros monumentos. Nova Deli merece as minhas desculpas, a cidade que me viu chegar, e agora partir, não me teve à altura. Um dia havemos de nos ver outra vez, prometo!

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

OS SIKHS E O TEMPLO DOURADO

AMRITSAR



Antes de regressar a Nova Deli e fazer a contagem decrescente para o regresso a casa, visitámos um dos lugares mais bonitos que conheci até hoje. O Templo Dourado de Amritsar. Amritsar situa-se no norte da Índia no estado de Panjabi, a cerca de trinta quilómetros da (única) fronteira com o Paquistão. Antes da chegada a Amritsar, muito pouco ou quase nada sabia acerca dos homens com turbante e barba grande. Por isso fui agradavelmente surpreendido com uma óptima hospitalidade. Depois de encontrar um recanto de quatro paredes com um colchão no meio para passar parte da noite, saímos do hotel, estava já escuro, mas a primeira impressão tinha sido positiva e decidimos ir imediatamente visitar o famoso Templo Dourado. O complexo do Templo não fecha e achámos que poderia ser bom visitar durante a noite. Já passava das dez quando reparámos que não só o complexo não fecha como também tem uma incrível actividade durante todas as 24 horas do dia, incluindo um mega refeitório que serve gratuitamente refeições a todos os interessados. Era fim-de-semana, existiam enormes filas de pessoas sentadas no chão de cabeça para baixo a petiscar o que vinha nos pratos de metal. O barulho do metal a bater quando atirado depois de usado ou lavado era ensurdecedor, as pilhas de pratos sujos eram lavados por voluntários, assim como todo o trabalho em volta daquela mega cozinha era feito por voluntários Sikhs. É um dos princípios da religião, não parar de servir quem de alguma forma necessita. De repente vimo-nos no meio de uma admirável moldura humana de homens com barbas grandes, turbantes na cabeça e facas à cintura. Três símbolos visíveis que caracterizam os Sikhs. Não passou muito tempo até termos alguém com esse aspecto a fazer-nos perguntas e a ser simpático. Primeiro pensámos que seria apenas mais uma conversa de blá blá blá e já está, mas começou a ser mais que isso, o Dav Singh parecia querer fazer a parte dele em servir quem de alguma forma necessita e não nos deixou ir embora sem nos dar uma valente lição sobre o que é o Sikhismo. Agradecemos e acabámos mesmo por nos encontrar mais vezes durante a nossa estadia em Amritsar. O Dav também nos mostrou outros lugares bonitos em Amritsar, levou-nos a beber chá, a jantar e ajudou-me a arranjar o meu próprio turbante. O Templo Dourado deixáva-nos completamente sem palavras, o nosso hotel ficava muito perto e por isso passámos lá muito tempo de boca aberta a olhar para toda aquela imagem indescritível que tínhamos à nossa volta. Havia uma coisa naquele lugar que era diferente das outras coisas na Índia, a multidão estava lá como sempre, mas não estava a confusão, o barulho e aquela imagem vertiginosa que muito nos acompanhou durante as nossas viagens na Índia. Foi o primeiro lugar, e talvez o único, onde a calma existia no meio de tamanho mar de pessoas. O Sikhismo é apenas a quinta maior religião existente na Índia e os seus seguidores estão essencialmente situados no estado de Panjabi. O Templo Dourado é o lugar de peregrinação que não pode faltar a qualquer Sikh. Em 1984 algumas divergências entre líderes Sikhs e o governo indiano fizeram com que as tropas indianas, ordenadas pela primeira-ministra Indira Gandhi, invadissem e destruíssem parte do Templo Dourado, com a justificação de que por detrás das suas paredes se escondiam planos contra o governo de Indira. Este facto levou à revolta dos Sikhs que jamais poderiam ter ficado indiferentes à agressão de que foi alvo o mais representativo espaço da sua religião. Pouco depois, um atentado levado a cabo por dois Sikhs, curiosamente guarda-costas da primeira-ministra, matou Indira e deu início a diversos actos de violência onde morreram cerca de dois milhares de Sikhs inocentes. Hoje, o primeiro-ministro da Índia, a maior democracia do Mundo, é Sikh.

Sábado, 10 de Janeiro de 2009

CEIA A PÃO TIBETANO

DHARAMSALA



É aqui que Dalai Lama tem a sua residência oficial desde que escapou para o exílio há 50 anos atrás. De resto Dharamsala é mais tibetano que indiano, atrás do seu líder espiritual chegaram e continuam a chegar mais tibetanos que entram em território indiano caso consigam escapar entre os grandes Himalaias. Outros ficam pelo caminho, ou porque são apanhados pelo exército chinês de ocupação ou porque simplesmente não resistem à força do frio nas montanhas. O Museu do Tibete em Dharamsala deixa-nos com uma clara ideia sobre o que os tibetanos têm sofrido nos últimos anos ao se tentarem libertar da ocupação chinesa. E hoje, essa é a luta do povo tibetano que tenta salvar o que ainda não foi destruído da sua cultura e tradição. Respira-se tranquilidade em Dharamsala, mas por detrás da calma aparente do lugar, movem-se as almas daqueles que passaram tormentas antes de aqui chegar. Mas eu sou apenas um turistazeco sem grande história (e contente por isso). Mas nem tudo é calmaria, e o nosso menino Jesus deu-me uma valente prenda em vésperas de Natal, um dia inteiro de cama com o estômago às voltas. O que entrava saia logo a seguir pelo mesmo sitio. O pão tibetano foi o único a arranjar um cantinho sossegado dentro da minha barriga! Bem dito sejas tu, meu pão tibetano, trouxeste graças à minha ceia!

Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

IOGA E OS BEATLES

RISHIKESH



Não, não vim a Rishikesh para ficar num Ashram a fazer ioga ou meditar junto ao Ganges apesar de dizerem ser aqui a capital Mundial do Ioga. Bem, mas lá me meti a vaguear por entre alguns montes de turistas a apreciar a paisagem que Rishikesh nos oferece. Ou melhor, a apreciar a paisagem que Laksham Jhula e Ram Jhula nos oferece, porque na verdade estes dois lugares ficam situados poucos quilómetros a norte da verdadeira cidade de Rishikesh. Na verdadeira cidade de Rishikesh estão os outros indianos. Aqueles que fazem outras coisas que não dobrar-se para apanhar o dinheiro do serviço prestado ao turista, esses são os verdadeiros indianos que rolam as suas vidas enquanto observam o vai e vem de estrangeiros que ali passam depois de sair, ou antes de entrar nos autocarros ou comboios que os levam da verdadeira Rishikesh para outro destino. Mas a vida de turista é assim, e como eu sou um deles, lá me fiquei pelos encantos de Laksham e Ram Jhula e deixei os verdadeiros indianos fazerem as suas vidas descansados na verdadeira Rishikesh. Foram mais uns dias para relaxar fora da verdadeira (alucinante) Índia. Aqui a água do Ganges é limpa, ou pelo menos dá alguma impressão disso. É a primeira ou umas das primeiras povoação a ter o prazer de desfrutar das suas margens. A paisagem completa-se com as verdinhas montanhas que se estendem em redor e também com as duas pontes suspensas que ligam as margens do rio e que servem de posto de comando para os macacos ladrões roubarem coisas comestíveis das mãos dos mais distraídos. Também interessantes são as montras das lojas de Música, entre paletes de Cd’s de cânticos hindus e baladas para meditar ou fazer Ioga, encontramos (em destaque) o “White Album”, reza a história que aqui, em finais dos anos 60, os quarto Beatles pernoitaram durante alguns meses e escreveram muitos dos temas que compõem o “álbum branco”. Depois de tamanho exemplo, porque não admitir que Rishikesh pode de facto ser um lugar para encontrar alguma inspiração, eu ainda não consegui descobrir a minha, mas só pode mesmo estar a caminho.

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

AS RAÍZES DO BUDISMO

SARNATH E BODHGAYA



Sarnath e Bodhgaya, ambos os lugares têm relação directa com o Budismo. Foi em Bodhgaya que Siddhartha Gautama atingiu a iluminação e se tornou Buda. Após a sua iluminação, Buda deslocou-se a Sarnath e foi onde pela primeira vez discursou sobre os seus ideais e motivações dando assim início ao Budismo. Foram estes acontecimentos que tornaram Sarnath e Bodhgaya lugares sagrados e de passagem obrigatória para qualquer budista. Sarnath situa-se a poucos quilómetros de Varanasi. Pouco se pode aqui encontrar à parte dos mosteiros budistas construídos em volta do local onde Buda discursou e do excelente Museu de Arqueologia, recheado de antigas e preciosas esculturas originárias da região. Tanto Sarnath como Bodhgaya estão repletos de mosteiros construídos por diversos países ligados ao Budismo. Mas o ponto maior é o deslumbrante templo Mahabodhi construído junto à árvore onde Siddhartha meditou até atingir a iluminação.

Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

HÁ VIDA NOS GHATS

VARANASI



Não existem muitas nações que conseguem preservar a sua história e tradição com tamanho carisma como a Índia o faz. Hoje, tenta-se encontrar espaço para que a sociedade moderna consiga penetrar e partilhar o mesmo lugar com a tradição indiana, repleta de misticismo e rituais que têm atravessado gerações e gerações. Viajar na Índia é viajar dentro da própria história sem que seja necessário abrir a porta do museu. Se existem poucos lugares com o carisma da Índia, menos ainda são os que podem ser comparados à cidade de Varanasi, o coração e casa maior do hinduísmo. As margens do sagrado Rio Ganges oferecem uma interminável paisagem de acontecimentos, não existe nada que não se possa ver ou imaginar acontecer nos seus Ghats, que são as escadarias que terminam nas águas do Ganges. Para quem visita Varanasi, uma das mais marcantes e fortes imagens é a passagem pela “Manikarnika Ghat”, onde todos os dias, quase continuamente, são cremados centenas de corpos para que assim seja efectuada a definitiva purificação do falecido. As cinzas são depois atiradas ao rio. Existe um número significante de hindus que se deslocam para Varanasi e ali ficam à espera do último dia das suas vidas para que depois lhe seja concedido este digno ritual fúnebre, na sua maioria mulheres viúvas que após o falecimento do conjugue vivem o que resta da sua vida à espera do fim da mesma, segundo determina e manda a sua religião. De resto, muitas são as diferenças entre o homem e a mulher na Índia, quase sempre com desvantagem para a mulher. Varanasi oferece-nos momentos que nos podem fascinar tanto pela positiva como pela negativa, é sem dúvida um lugar que não deixa ninguém indiferente. Entre simples crentes, que vêm as margens do rio para a “Puuja” (reza dos hindus); Sadus, os homens sagrados que se maquilham e vestem exuberantes e coloridas roupas; Vendedores ambulantes; Barqueiros e massageiros que a todo o custo procuram turisto-clientes, aparecem crianças, vindas de todos os lados tentando ganhar o seu sustento com moedas perdidas dos bolsos dos turistas. O trabalho infantil é um dos grandes problemas da Índia, apesar da recente lei que proíbe o trabalho a menores de 14 anos, pouca ou mesmo nenhuma fiscalização impede que tal lei seja colocada definitivamente em prática. São muitas as crianças, que sem outra forma de sustento, são obrigadas a cair na rua para tentar ganhar graças de um turista que passa, ora vendendo souvenirs, ora arrastando um turisto-cliente para uma qualquer loja de têxteis, ganhando com isso uma pequena comissão. Utilizam as mais diversas formas de aliciação e é assustadora a forma como tão pequenas crianças falam (em bom inglês) e actuam perante os turistas. Varanasi oferece tanto, mas não exige menos, e uma mente não suficientemente preparada para a sua poderosíssimo essência poderá estragar o fascínio e misticismo que ela tem para oferecer. Varanasi talvez seja um daqueles lugares que ou se adora ou se odeia. Se houvesse uma pessoa com quem eu mais gostaria de partilhar as emoções que ficaram sobre a visita a Varanasi, essa pessoa seria o meu amigo Eugénio Gaspar a quem, em parte, devo esta viagem, valorizada com as tão boas indicações que me deixou antes de partir.

Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

ILHA DE DIU

DIU



Diu, tal como Damão e Goa, foi colónia portuguesa durante mais de 400 anos. Esta pequena Ilha com cerca de 11 por 3 km de distância situa-se perto da costa central indiana, no Mar Arábico, a sul do estado de Gujarat e tem ligação com o restante continente através de uma pequena ponte. Em 1961, após algumas tentativas de acordo falhadas entre o governo indiano e o português (liderado por Salazar) para entrega da Ilha à Índia, o exército indiano ocupou Diu, tornando-a seu território. A minha visita a Diu foi inesperadamente saborosa. Para além de encontrar comida que me possibilitou fazer uma valente pausa dos fortes temperos indianos, encontrei ainda muitas outras coisas que me fizeram ficar com bonitas recordações deste lugar. Pela primeira vez estive tão longe de Portugal com oportunidade de sentir uma valente aragem lusitana, a herança deixada em Diu não passa despercebida, ao longo de toda a Ilha é fácil encontrar vestígios da estadia portuguesa, nos nomes das Ruas, as Igrejas, Conventos, o Forte de Diu e os alguns descendentes indo-lusitanos que teimam em deixar vivas as marcas. O português continua a ser usado, mesmo pelos mais pequenos. Um comerciante, ao perceber que eu me aproximava do frigorífico da sua pequena loja, perguntou-me em português “Água fresca?”, mesmo antes de saber se eu o entendia. Então depois de descobrir que estava ali um Tuga de raiz, puxou um banco para me deixar confortável e começou a dar corda à garganta. Durou até eu dizer que estava cansado e que precisava de dormir. Foi muito importante e agradável conhecer e falar com estas pessoas e perceber o quanto estimam um país que influenciou a sua existência, mas que muitas delas nunca tiveram o privilégio de visitar. Falei com o Sr. Isaac que não gosta de Fado e me perguntou se tinha Tango ou Valsa para lhe gravar. Mas foi com a mãe do Sr. Isaac que o suspiro lusitano me atacou com mais intensidade, senhora já na casa dos setenta, contou que se não fosse o Sr.Isaac estar prestes a sair-lhe da barriga, também ela tinha fugido para Portugal em 61. Num jeito muito calmo e ao mesmo tempo tresloucado, contou-nos como se recorda dos tempos em que a Ilha era governada pelos portugueses, e o quanto o governador era atencioso para a povoação, tão atencioso que quando era chamado devido a algum problema, ele próprio se deslocava a casa das pessoas para saber do que se tratava. Quase de lágrimas nos olhos, disse-nos ainda como se recorda do barulho das bombas com que os indianos expulsaram os portugueses em Dezembro de 1961. Eu tenho pena de apenas ter tido oportunidade para ouvir e não falar/perguntar, uma vez que a audição da mãe do Sr. Isaac já não a deixa aventurar-se em grandes conversas. Um pouco por cada canto lá fui encontrando formas de matar algumas saudades de casa. Diu é completamente diferente dos outros lugares que tinha antes visitado na Índia, muito mais calmo, limpo e socialmente melhor organizado, talvez seja do número reduzido de população, em relação aos outros lugares, mas também não posso deixar de acreditar que a influência portuguesa tenha sido fulcral na construção daquele lugar. O dono de um dos restaurantes que frequentei deu-me como razão para a passividade da Ilha, as regras vigentes aquando a governação portuguesa. Disse-me que isso permitiu uma relevante organização social e também cultural, como prova temos a taxa de alfabetismo de Diu, que está bem acima da média indiana. Para acabar e aproveitando tamanha passividade, porque não alugar uma scooter e tentar descobrir os mais escondidos recantos da Ilha, foi o que fizemos e muito bem!

Sábado, 18 de Outubro de 2008

O AMOR É DEPOIS



Indiana: “Não gostas de mim, pois não?”
Indiano: “Nós só estamos casados há três dias, ok?”

Na Índia, faz-se primeiro o Casamento, e só depois deve vir o Amor.
E é mesmo assim. Não é só nos filmes.

Do filme indiano FIRE de Deepa Mehta.

Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

AMAR E O TÁS MAL

AGRA



E zás, já fomos picar o cartão ao Tás Mal... Turista que é turista jamais deixa a Índia sem visitar o Tás Mal. As fotozinhas da praxe e pronto, já está! O Tás Mal é mesmo uma coisa bonita de se ver, de qualquer forma tenho dúvidas (muitas) se é mesmo a mais impressionante construcção que já vi. Fora isso tentámos dar-nos bem com Agra, mas nem por isso conseguimos. É uma cidade muito suja, mal cheirosa, desorganizada e muito cara se comparar com os outros lugares que já visitei na Índia. Em Agra é mais difícil negociar os preços porque a procura é suficientemente grande e os comerciantes nem sempre se importam de não fazer negócio. Não foi mesmo fácil sentir conforto em Agra. E não fosse o Taj Mahal, e o Forte de Agra (que é muito bonito também), não valeria mesmo a pena visitar Agra. Perdoem-me se estou a ser mauzinho, mas Agra (cidade) não me ficará na memória por bons motivos. Diria mesmo que o Tás Mal estaria melhor noutro lugar. Pela primeira vez aceitámos apanhar uma cycle-rishaw (bicicleta-táxi), cujo seu condutor se chamava Amar e tinha 13 anos. Para mim foi algo especialmente estranho aceitar dar trabalho a uma criança, que deveria estar na escola e não a trabalhar desde que o sol nasce até que caia a noite novamente (todos os dias), ele contou-nos que a sua vida era assim mesmo. Estar ali com o Amar significava mais para mim do que apenas a requisição dos seus serviços, era um miúdo que ali estava a governar-se no mundo dos grandes. A caminho do Forte de Agra, fomos trocando de vez, ora pedalava ele (nas zonas com mais trânsito e cruzamentos), ora pedalava eu em rectas mais longas ou estradas mais calma. Dividimos assim o esforço e foi para mim divertido conduzir a cycle-rishaw. O Amar falava excepcionalmente bom inglês, dominava completamente as palavras e as frases que frequentemente utilizava com os turistas, no entanto mostrava algumas limitações quando tentávamos falar acerca de outras coisas que não as coisas a que ele estava habituado a falar. Sobre a escola por exemplo, sempre que eu falava na escola ele ficava sem palavras para me responder. Quando chegámos ao Forte, o Amar, de imediato perguntou quanto tempo demorávamos na visita porque queria ser ele a levar-nos de volta para outro lugar e assim ganhava mais dinheiro. Não respondi, mas perguntei-lhe se ele já tinha visitado o Forte, ele disse que sim, mas foi um sim muito envergonhado e logo topei que não era verdade. Convidámo-lo para vir connosco mas ele teimava em não aceitar. Por fim, depois de algumas tentativas, lá aceitou, acho que só aceitou porque eu lhe disse que se ele não viesse connosco, podia ir-se embora porque nós não voltávamos a sentar-nos na sua cycle-rishaw. Lá nos acompanhou, não sei se lhe deu grande prazer visitar o Forte e estar rodeado de pessoas “diferentes”, de pessoas que não as do seu “nível social”. É incrível como na Índia ainda existe tamanha diferença no que diz respeito a classes sociais. É verdadeiramente triste ver como as pessoas se tratam de diferentes formas consoante a sua classe social. Então foi assim que fomos quebrando algumas regras e fizemos do Amar o nosso amigo especial que nos acompanhava na visita ao Forte de Agra. Foi logo estranho à entrada, por entre alguns comentários e expressões de espanto, o segurança lá nos deixou entrar com o Amar, mas claro, tivemos que explicar mais do que uma vez que ele era nosso amigo e que nos acompanhava. Já dentro do Forte um outro segurança chegou junto do Amar e pegou-lhe no braço perguntando o que ele ali estava a fazer, eu cheguei-me atrevidamente e perguntei por que razão é que ele segurava no Amar pelo braço e porque que razão ele estava a perturbar a nossa visita ao Forte. O segurança tratou de falar em hindu só para o Amar perceber, num tom invisivelmente rude que quase não nos possibilitou perceber muito bem o que ele queria mesmo, depois percebemos que o tentou intimidar dizendo que ele não podia estar ali. Eu continuei a insistir a perguntar qual era o problema dele e porque não podia o Amar estar ali connosco. Por fim o segurança deixou-o pois o estatuto do turista na Índia é respeitado e a minha teimosia foi suficiente. Já o pequeno Amar, com os seus 13 aninhos, não poderia visitar o Forte se não estivesse connosco. Senti-me saudavelmente bem ao quebrar um pouco do que são estas retrógradas regras indianas. Eu olhava para o Amar e só conseguia ver ali uma criança, todavia ao longo da nossa visita ao Forte muitas pessoas nos olharam com ar de admiração e adivinho que perguntavam a si mesmas “O que está aqui a fazer este da classe dos pobres”, ou algo de muito parecido. O Amar não estava bem vestido, mas também não estava mal vestido. Mais importante, o Amar ainda é uma criança, mas aqui na Índia isso ainda pouco importa.

Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

A CIDADE BRANCA

UDAIPUR



Aquilo que tinha lido antes de partir já me havia deixado convicto de que Udaipur tinha tudo para nos proporcionar uma estadia em grande, e isso aconteceu mesmo. Posso ainda dizer que superou as minhas melhores expectativas. Depois destes dois dias voltámos a Jaipur com uma enorme satisfação e ainda mais vontade de saltar para a rua à descoberta da Índia e das suas gentes. A viagem entre Jaipur e Udaipur (a Cidade Branca) foi relativamente longa, cerca de nove horas (já a contar com os atrasos), mas até se fez bem... a dormir! Não é que tenha conseguido dormir a noite toda, mas o suficiente para sair da estação de Udaipur com vontade de, imediatamente, me meter a andar cidade dentro. Logo à partida me pareceu um lugar bastante tranquilo, com pessoas tranquilas e onde definitivamente se poderia encontrar interessantes pontos de aprendizagem sobre a realidade indiana, sobre o Rajastão, os hindus, ou de uma forma geral, sobre o que vai na mente daquelas pessoas com quem nos cruzávamos na rua. Senti alguma facilidade em comunicar, não sei se será mesmo do lugar ou se foi simplesmente pura coincidência, não sei, mas acho que também não importa agora saber. A verdade é que isso me deu a oportunidade de “penetrar” um pouco mais no universo dos indianos, partilhando (sempre recebendo mais que dando) ideias e formas de lidar com o que nos rodeia, formas de lidar com a Vida. Não sei se devo dizer que os indianos têm uma estranha forma de lidar com a vida, não! Acho que devo apenas dizer que a forma deles é diferente da forma de um europeu tipo (a outra única forma que posso dar como termo de comparação). Não querendo colocar toda a imensidão de uma Europa num só saco, acontece que desde que cheguei à Índia é com alguma naturalidade que durante uma qualquer conversa pode saltar algo do género: “Na Europa... Isto. Na Europa... Aquilo.” Se calhar quando eu for a Marte vou contar aos marcianos que nós aqui no Planeta Terra... Isto. Ou nós aqui no Planeta Terra... Aquilo. Quando penso desta forma, julgo que no fundo existe algum excesso de simplicismo e que da próxima vez deveria tentar falar em nome de um português e não de um europeu. Mas também lá no fundo algo me diz que é mais fácil falar em nome da Europa. Talvez o melhor seja tentar alternar entre os dois. Voltando a Udaipur... Começamos pelo Palácio da Cidade e decidimos comprar os serviços de um guia turístico, privado, mas a um preço bastante convidativo (dois euros e meio). A visita durou hora e meia e aqueles dois euros e meio não podiam ter sido melhor aproveitados, além da eficaz explicação em redor de algumas histórias e curiosidades do Palácio, conseguimos ainda ter uma interessante perspectiva de como um indiano (formado) olha para o seu próprio país. Conhecemos depois o Naru que me tentou ensinar a tocar Ravanhattha, acho que sem grande sucesso. O Naru não sabia ler, e mal me conseguiu escrever o seu nome, talvez “Naru” seja a forma mais simples e na verdade o seu nome seja bem mais complicado do que um simples “Naru”. Mas o Naru falava algum inglês o que me fez ficar ali sentado durante algum tempo. Falou sobre si, sobre a sua Ravanhattha e algumas experiências com outros estrangeiros que por ali paravam. No final tentou que eu lhe comprasse a Ravanhattha, e como eu fui dizendo que não, ele disse que também podia trocar a Ravanhattha por telemóvel ou câmara fotográfica. A Ravanhattha é um instrumento simples, de cordas, basicamente usa-se sempre a mesma corda, apesar de ter mais umas quantas que quase só servem para enfeitar. Ele disse-me que às vezes as usa, mas que é raro. A vida do Naru é fazer Ravanhatthas para tentar vender aos turistas. Outra memória que certamente vai ficar comigo é a da minha primeira experiência (talvez última, não sei) como participante na “Pooja”, a reza dos hindus. Todos os dias o ritual se repete nos seus templos, o cenário é agradável, os cheiros a jasmim misturam-se com outros aromas de incenso a queimar.

Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

O LAGO SAGRADO E O DEUS BRAMA

PUSHKAR



O fim-de-semana levou-nos até à pequena cidade de Pushkar, conhecida por ser um lugar extremamente religioso, onde, quase a cada esquina, se pode encontrar um templo hindu. Mas o grande símbolo de Pushkar é o seu lago sagrado. Os rituais nas suas margens são muitos e a cada instante se pode ver o quanto aquela água é respeitada e adorada pelos indianos. Avisos espalhados algures nas enormes escadarias que envolvem as suas margens, dizem que só se pode estar a menos de 40 “pés” da água se se estiver descalço, caso contrário pode ser levado como um sinal de desrespeito para com o hinduísmo. Pushkar é um lugar aparentemente calmo, todavia não posso dizer que assim mesmo o seja, pois a sua calma aparente pode ser, por vezes, quebrada pelos pedintes de rua, que esperam os forasteiros para misturar a sua fome de moedas com a venda de rituais religiosos que, nas suas palavras, devem ser seguidos como sinal de respeito pelas suas tradições, no entanto facilmente se percebe de que, a eles, pouco importa a tradição ou o nosso devoto e respeito pela sua religião, ali são as moedas que comandam a operação. De qualquer forma existe sempre forma de os contornar, não será devido a deles que uma visita a Pushkar deixa de ser agradável. De entre todos os mais de 400 templos que fazem de Pushkar o lugar da Índia com mais templos por metro quadrado, existe um que me parece especialmente importante, pelo facto de ser o único na Índia dedicado ao Deus Brama. Segundo o hinduísmo, Brama (o criador) teve como tarefa a criação do Universo e do ser vivo, sendo que essa função há muito foi cumprida e talvez por isso, apesar da sua reconhecida importância, poucos hindus o têm como referência. A mim parece-me um Deus um tanto ou quanto injustiçado, depois de tamanha tarefa merecia talvez um pouco mais de atenção, mas no fundo até compreendo, se eu fosse hindu talvez também daria maior importância, por exemplo, ao Deus da sorte e da boa fortuna, ou ao Deus da energia, não sei, digo eu assim por alto. Na verdade pouco sei sobre o que pensam os hindus acerca de Brama, talvez até esteja enganado no que digo. De resto as ruas de Pushkar são divertidas, muita música, muitas lojas e restaurantes vegetarianos. Em Pushkar não se bebem bebidas alcoólicas, nem se comem comidas que não sejam vegetarianas. E claro, também aqui as vacas fazem o que querem, onde querem!

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

INCRÍVEL ÍNDIA

INDIA



Índia, Índia... Incrível Índia, como muitas vezes vejo algures por aqui escrito e que também muitas outras vezes me apetece repetir em jeito de desabafo, simplesmente porque de facto, a Índia é um lugar incrível. Jamais esquecerei o dia em que, ainda mal acordado e acabado do saltar da confortável cadeira do Boeing 777, troquei os meus euros por rúpias, sem nunca antes me ter dado ao trabalho de ver com o quê se parece uma nota indiana. Saí do aeroporto, porta fora, em direcção ao coração de umas das maiores e mais caóticas cidades do Mundo, Nova Deli. O cheiro; o calor tão diferente, sufocante; as pessoas; o barulho; a vertiginosa desordem que ali me invadiu (ou eu a ela), logo após o primeiro passo no exterior do aeroporto. Tudo tão rápido, tudo tão confuso que foram necessários alguns segundos de concentração para que aquela minha figura de turista inocente, desorientado no meio da ameaça do caos, pudesse, por fim, desaparecer da minha imaginação. Pensei por momentos se estaria mesmo preparado para, tão de repente, enfrentar tamanha novidade. “Yes, Sir!... Come!... Where you going?... Come with me!... Please enter… Sir… Yes… Come Sir!”, Na verdade não estaria mesmo preparado para absorver tudo o que naquele momento se passava à minha volta. Acabei por “cair em mim” quando já estava sentado num dos táxis que faziam espera perto da porta principal do Aeroporto. No táxi olhava à volta, não conseguia ver tudo quanto queria, o condutor guiava muito depressa e havia tanta coisa para ver que um simples piscar de olhos me poderia afectar o momento. Esta primeira viagem que me levou para dentro de Deli parecia uma alucinação, uma autêntica cena de cinema que nunca antes tinha sentido e nem imaginei que iria sentir. Aos poucos, a adrenalina foi baixando. Quando chegámos a paragem de autocarros (com destino a Jaipur), o meu instinto “duvidador” actuou pela primeira vez, aquilo parecia tudo menos uma garagem de autocarros. Por fim, vi que era mesmo o lugar certo, pedi desculpa e agradeci ao taxista, que prontamente aproveitou para pedir uma gorjeta extra. Eu recusei, ele insistiu. Eu recusei pela última vez e virei-lhe as costas. Hoje, passada uma semana e alguns dias desde a minha chegada, já consigo perceber um pouco melhor sobre como estar no dia-a-dia da incrível Índia: continuo a olhar para as coisas com os olhos muito abertos e fascinados, mas já não me parece uma cena de cinema; continuo céptico, mas já sei que muitas coisas podem não parecer o que são. E tantas outras coisas que já aprendi, simplesmente tendo a incrível oportunidade de as viver. Seja quem for, aconteça o que acontecer, a Índia, só pode ser para alguém a Índia, quando esse alguém tiver a oportunidade de viver o seu cheiro; o seu calor; as suas pessoas; o seu barulho e o seu silêncio; a sua desordem e a sua paz. Antes disso, a Índia não poderá ser mais do que aquele lugar que todos (ou quase todos) têm como sendo um lugar “Incrível”, não podendo no entanto imaginar o verdadeiro significado do adjectivo.

Sábado, 30 de Agosto de 2008

ÍNDIA

JAIPUR



Na Índia, a exploração de trabalho infantil afecta muitos milhões de crianças. Crianças a quem não é concedido o direito de brincar, nem estudar. Muitas vivem na rua. E assim continuamos tão distante uns dos outros.

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

A NOVA VARSÓVIA

VARSÓVIA



É inevitável estar-se em Varsóvia sem se imaginar o quanto poderá aquela cidade ter sido desfeita. Não sei se seria melhor pensar que tudo ali era normal, que aquele sitio não tinha sido vítima de uma das maiores destruições urbanas de que reza a história, se não a maior. Mas é mesmo inevitável, e a cada rua descida, a imaginação assaltava e tornava-se difícil olhar para a Varsóvia de hoje. No entanto, tudo estava apenas na minha cabeça, de facto, a Varsóvia de hoje é uma cidade que parece ser como tantas outras que foram crescendo, crescendo sem interrupção. Uma cidade que parece nada ter haver com a história da outra que os alemães decidiram matar. Infelizmente a minha visita resumiu-se a alguns poucos passeios, não os suficientes para ter uma ideia relativamente bem formada acerca da sua vida. Desde a estação até entrar avenida Marszałkowska tivemos apenas tempo de olhar alguns minutos para o enorme Palácio da Cultura e da Ciência, talvez o edifício mais relevante da cidade. Logo ali na esquina entre a rua Jerozolimskie e a Marszałkowska estende-se a imagem de uma “Piccadilly” à moda de Varsóvia, um pouco mais abaixo chegámos ao local que nos abrigou durante os dois dias de estadia. Os passeios entre o Hotel e a cidade velha eram agradáveis, o grande desafio era escolher em qual dos restaurantes entrar para a devida e saborosa pausa entre os passeios. Irónicamente, aproveitei os dias na capital polaca para descansar um pouco e na verdade consegui. Não encontrei uma Varsóvia tão inquieta como me tinha explicado, pelo contrário, encontrei uma cidade bastante relaxada. Acho que devo um pedido de desculpas à cidade pelo facto do meu espírito de explorador ter estado muito em baixo, assim terá que ficar prometida uma nova visita à capital polaca.

Domingo, 25 de Maio de 2008

AND MY VOTE GOES TO…

Finally, I decided to write here using English words, sorry for that! I couldn’t find such a better subject as the Eurovision Contest. In fact I still cannot really understand the point of this contest. After long time without watch such an event, I was wasting my time in front of the screen. Well, I cannot say it was a waste of time, cause till some point was even funny. I was just a little misled regarding to all the show drafting process. I admit that I feel sorry for those who decided to use the phone and vote the song they found as being the best. You know, this is not about music, damn... Far from that! That’s just a pretty place, where pretty people are showing off their pretty and clean clothes, full of colours and flowers if possible! Is just about the SHOW!

In the end there was a voting period! I can call that, a geographical voting period! Because no one was in fact interested in music! For example, Portuguese citizens (so, perhaps the emigrants) gave maximum points to Ukraine, great! Our highest income points came from Switzerland and France! You guess why? Well, I just can provide that if my country was situated in the middle of Europe and perhaps we could have a closer relation with our neighbours, and also maybe with many emigrants able to vote for us from different countries, I sure we would get to the top of the table easier! Anyway, I don’t want to mean that all this is a bad thing, maybe it is not, it just kind of pathetic in my humble opinion.

A part from all this lights and stuff, I wish people around could really listen to music and understand what they listen to, that would be great. Forget the contests! Music is not this, so, call everything you want to, but don’t use such a word, MUSIC does not fit here!

Sábado, 3 de Maio de 2008

BUDA E PESTE

Desci as escadas a correr, o sol está forte e posso usar a bicicleta. De dois em dois degraus chego à garagem, abro o cadeado e num instante já estou a correr a Dembinszky Utca (Rua Dembinszky) em direcção ao centro. Como sempre encontro pelo caminho o eléctrico número 76, também sempre sou mais rápido, ultrapasso-o e entro à frente na Wesselényi Utca. Mas desta vez não parei no número 26 do escritório da Fundação Planet e segui, sem deixar de pedalar, até à Deák Tér (Praça Déak). Estranhamente tinha saudades de respirar o poluído ar da Praça Deák. Parei, e depois de olhar o topo da Basílica de Santo Istvan e relembrar o quanto grande ela é, continuei sem sequer sentir o mais pequeno sinal de cansaço. Dali até às margens do Danúbio pouco passou e entre escolher a Ponte Margit e a Széchenyi, decidi-me pela segunda para chegar a Buda. Já lá, hesitei, mas acabei por me decidir em seguir o rio para sul, enquanto barcos flutuavam no “Duna” seguindo a mesma direcção, por instantes pensei que seria perfeito flutuar como eles, mas depressa percebi que não era o melhor, pois o seu flutuar é sempre despreocupado e sem pressas, e eu estava inquieto, queria esgotar a cidade o melhor e mais depressa possível. Depois de passar perto da Ponte Erzsébet e dos banhos Rudas, fiquei com o monte Gellért mesmo por cima de mim, quase me esquecia do quanto bonita é toda a área da cidadela. Continuei a pedalar, voltei a Peste pela Ponte da Liberdade e depois de atravessar o grande edifício do mercado cheguei à Kálvin Tér (Praça Kálvin), a vontade de beber o saboroso café do bar Monyo quase me fez parar, mas não, não parei e entrei na Rua Ráday... A Ráday rasga o turístico, mas não perde o charme de uma verdadeira rua budapestiana ainda significantemente alimentada por budapestianos em sintonia com os estrangueiros. Nunca tinha sentido tanta vontade de pedalar, nunca tinha sentido tanta vontade de ter os olhos tão abertos e olhar para todos os lados o mais que conseguisse. Cruzei uma das perpendiculares à Ráday e logo a seguir cheguei à enorme avenida dos eléctricos 4 e 6. Segui em direcção a Blaha Lujza Tér. Parei por momentos para equilibrar a respiração e tentar decidir o caminho a seguir. Não tive tempo... A porcaria do relógio nunca foi capaz de me transmitir boa energia, e às 8h30 tocou até eu lhe meter a mão em cima e despertar para mais um dia em que o sono e o sonho acaba vencido pela maldita força da rotina, que tão longe continua da minha vontade. Mais uma vez a imaginação e o sonho se desfazem antes que a verdadeira vontade se vingue.

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

"NENHUM OLHAR" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO EM HÚNGARO

JOSÉ LUÍS PEIXOTO



É apresentada, no próximo dia 5 de Dezembro, a tradução húngara do livro "Nenhum Olhar" de José Luís Peixoto. Esta obra tornou-se como que a confirmação do escritor no seio da literatura portuguesa e internacional. Ganhou o prémio José Saramago e já foi também traduzida em várias línguas. Agora é a vez do húngaro. A edição está a cargo da Editora Europá. A cerimónia de lançamento tem lugar por volta das 17h no Centro Interuniversitário de Estudos Franceses e é organizada pelo Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Budapeste. Nesta cerimónia, os presentes, poderão ouvir e conversar com Miklós Nagy, chefe de redacção da Editora Európa, e com Mónika Bense, a tradutora. Serão também lidos excertos do romance em ambas as línguas. Em húngaro, o livro chama-se "Egyetlen Pillantás Nélkül".

Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

NO TOPO DA EUROPA

FRANKFURT



À partida, Frankfurt é a cidade moderna, é a cidade cosmopolitana e bem colocada no topo das cidades melhor organizadas na Europa. Tudo isto é verdade. Mas a história também está lá. Römer é hoje a imagem da história da cidade, foi talvez aqui que os romanos fundaram a cidade no século I. Os belíssimos edifícios situados em volta da praça não escaparam às fúrias da Segunda Guerra Mundial, mas disso não resta qualquer sinal. Frankfurt é hoje o centro de alojamento financeiro da Europa, e na verdade, basta percorrer a comprida Berger Straße, repleta de lojas de todas as cores, formas e feitios, para perceber a força do poder de compra ali existente, ou nem é preciso ir assim tão longe. Frankfurt é saudável, é vida, recomenda-se!

Sábado, 11 de Agosto de 2007

OUTRA VEZ AQUI

SÃO PEDRO DE MOEL - AGOSTO, 2007



Sinto-me assim... Desconfortável, de cabeça para baixo, e com vontade apenas em ouvir o mar, que me soa bem melhor do que aquilo que tenho ouvido ultimamente. No entanto não quero ficar assim, com a cabeça para baixo, não vou ficar assim, com a cabeça para baixo.

Terça-feira, 8 de Maio de 2007

O BICA EM PESTE

CONCERTO



Ainda antes do meu não aguardado regresso a terras lusas, em Budapeste irei ter o prazer de mais uma vez assistir ao reunir do contra-baixo do Carlos Bica, da guitarra do Frank Möbus e da bateria do Jim Black. A tour do "Believer" passa pela Hungria, e se não me engano, será a primeira oportunidade para os magiares sentirem a mágica ressonância das cordas do Bica. É já dia 30 de Maio no barco A38, e quem está… está, quem não está talvez esteja num dos outros. A tour do "Believer" passa ainda na Alemanha, Austria, Suiça, Holanda e Portugal, estejam atentos.

Carlos Bica na Web:
www.carlosbica.com

Segunda-feira, 30 de Abril de 2007

BÓSNIA E OS REENCONTROS

SARAJEVO



A visita à Bósnia-Herzegovina marcou o meu regresso aos Balcãs, aos buracos, ao Burek e a um inesperado encontro. O país divide-se em dois estados, o estado de Bósnia e o estado de Herzegovina, Sarejevo é capital e situa-se no estado de Bósnia. Após o final da Guerra Fria, Sarajevo é agora uma cidade nova mas com muitas marcas das recentes brigas entre sérvios, croatas e bósnios. A diversidade religiosa é enorme, o islamismo é a aquela que aparenta ter mais poder, mas sendo a cidade fortemente habitada por sérvios, na sua maioria cristãos ortodoxos, e por croatas, maioritariamente católicos romanos, a estabilidade religiosa e o desenvolvimento económico-cultural deixa muito a desejar e a imagem que me ficou é que tudo está muito pouco organizado e as regras são poucas. No centro da cidade as pessoas pedem dinheiro, e junto dos mais adultos sempre se vêm também crianças esticando a mão na esperaça de receber uma resposta em troca, sinceramente fiquei com a ideia de que muitos deles nem sequer têm a noção do que fazem. Um rapaz, novito mas bem aparentado, de fato de treino e mochila da escola, completamente normalissimo, parecia ter acabado de sair da escola, e enquanto percorria o caminho até casa aproveitava para pedir dinheiro a todos aqueles que encontrava no caminho, fiquei com a nitida impressão que o fazia apenas porque havia crescido num mundo onde as pessoas o fazem, e fazem-no parecendo ser a coisa mais natural. E assim ele também fazia. E caminhando por entre as pequenas lojas de madeira do mercado central, os exemplos são muitos. Mas a minha experiência com dinheiros na Bósnia foi ainda maior. Chegámos num Sábado e sem pensar muito, apenas tinhamos na carteira forints húngaros, cedo percebemos que poderia ser um problema, todo o fim de semana não encontrámos quem nos aceitasse trocar forints por marcos bósnios. No Sábado conseguimos no hostel um empréstimo de 20 marcos, mas que pouco duraram (cerca de 10 euros), no Domingo previ dia dificil, andar ali sem dinheiro não era saudável e quase me senti obrigado a juntar-me aos outros na caça de alguns trocos. Mas por vezes as coisas são mesmo imprevisiveis e quando menos as espero, elas acontecem, ouço alguém chamar-me, de repente nem liguei, mas ouvi outra vez e para espanto meio, no meio de uma das ruas de Sarajevo encontro um colega conterraneo que já não avistava há muito. E mais palavras para quê! passado o espanto, seguem-se as cervejas e a tão preciosa troca de forints húngaros em marcos bósnios, a minha salvação na bósnia! Depois não podia deixar de aproveitar a ocasião para voltar a deliciar-me com o Burek, a semelhança da Sérvia, também na Bósnia o Burek é o forte da gastronomia e mais uma vez me babei por mais. Depois de me descalçar, entrei pela primeira vez dentro de uma mosquita, segundo li, a maior da Europa, à excepção das que existem na Turquia. Depois estivemos no local onde foi assassinado o arquiduque austro-húngaro e presumível herdeiro ao trono imperial dos Habsburgos, Franz Ferdinand. O assassinato marcou o arranque da primeira Guerra Mundial. De resto, foi bom subir um pouco de um dos montes que rodeiam a capital bósnia e olhar para o grande vale onde Sarajevo quis nascer.

Segunda-feira, 2 de Abril de 2007

MURO DAS MEMÓRIAS

BERLIM



Escondidas numa Berlim agora completamente modernizada continuam as imensas memórias da actividade nazi, das guerras, da cortina de ferro. Escondidas ou nem tanto. Se por um lado me parecem, os berlinenses, querer fugir a tais antepassados, outros sempre haverão querendo neles entrar, e eu não pude deixar de o tentar fazer. Chegar, sentir o cheiro, sentir o palco de mil histórias da antiga alemanha que foram crescendo comigo e com certeza um pouco com todos nós, muitas vezes sem nelas pensar ou sem a elas dar muita importância. Ouvi falar de muitas histórias antes, mas agora é diferente, agora consigo quase sentir-me dentro delas, mesmo sabendo o quanto tudo mudou. Apesar dos anos que lá vão, dos montes de edificios apagados e dos novos que em seu lugar cresceram, do muro que já não existe, de uma Berlim de hoje completamente diferente do que era, apesar de tudo isto estando lá acaba-se sempre por sentir toda a energia e intensidade daqueles anos que teimam em não ser esquecidos ou posso dizer, nunca o serão. Entre Budapeste e Berlim ficam cerca de 900 km de estrada que atravessam 3 países antes de entrar a sul da Alemanha. Decidimos saltar para a estrada, esticar o dedo e esperar pela boa vontade dos condutores que passavam. O resultado, uma viagem longa, barata, e com algumas bons palmos de conversa com aqueles que pelo caminho nos partilharam o seu espaço. Gyor, Bratislava, Brno, Praga, Dresden e por fim a chegada. Em Berlim, o primeiro destino, casa da Kristina que nos deu um bocado do espaço do seu quarto durante estes três dias. Acabei por relacionar toda a vida e imagem do seu apartamento com as pessoas alemãs, sobretudo com a imagem que eu tenho das pessoas alemãs do pós-guerra. Esta realidade encaixou perfeitamente naquilo que meu imaginário havia criado. Tudo tão diferente, pintado, escrito, colorido... As pessoas, os cabelos delas, as roupas delas, tudo parece tão novo, tão aberto. Berlim é definitivamente uma cidade moderna, de mente aberta e onde as alternativas existem, Berlim não é uma cidade banal, Berlim é sem dúvida um lugar onde as ideias se sentem flutuar. Por outro lado, a Berlim de hoje deixou-me sentir um pequeno vazio, mas um vazio meu e egoista de quem quer saltar mais ainda para cima da história, ela estava lá, mas com o cenário completamente refeito, parecendo ter havido vontade de não deixar rastos de que algo se tenha ali passado. Mas sim, a cidade foi completamente destruida durante a segunda guerra e com certeza não há alemão que não tenha feito os possiveis para apagar qualquer vestigio da destruição. Há uma excepção, a Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche (a Igreja das Memórias), foi deixada tal como ficou após a invasão dos Aliados, daí o nome que tem. Em plena Los Angels Platz, a Igreja das Memórias faz frente aos mais variados e exuberantes estilos modernos que os edificios em sua volta ostentam, mas que acabam desvalorizados no meio de magestosa mostra da realidade da guerra. A poucos metros da Los Angels Platz fica o Zoologischer Garten e a estação que não poderia deixar de me fazer recordar Christiane F. Daqui metade a pé e outra metade no autocarro 100 e ficámos em frente ao Reichstag. Depois, um pouco mais, passamos o Brandenburger Tor e acabámos em Alexander Platz a imaginar a vista que se poderá ter do topo da Fernsehturm (a Torre de Televisão). Depois caminhamos na rua Kastanienallee ao largo dos imensos e diversos bares e lojas. Berlim vale pela diversidade cultural resultante de um povo "renovado" e de mente aberta. Kristina contou-nos algumas histórias sobre as suas (más) experiências com alguns Nazis, ainda existe uma relativa comunidade em Berlim contra quem, segundo a Kristina, a policia parece continuar a travar lutas. A nosso último destino foi Kréuzberg, antes ouvimos falar muito desta zona da cidade e não fomos embora sem visitar, infelizmente deu apenas tempo para uma cerveja ao ritmo da Bundesliga, um café ruidoso onde fanáticos de futebol dividiam apostas. Berlim é uma cidade bonita, não da mesma forma que Budapeste é, mas de outra talvez mais importante. O regresso à Hungria não foi tão fácil como a ida para a Alemanha, mas por fim lá chegámos a casa... Satisfeitos.

Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

BIO-PROJECTO

Encontrei-os mesmo aqui ao lado mas o rasto vem da França e da Polónia. Os B.I.O Project estão agora a dar os primeiros passos. Depois do palco montado em Budapeste a brincadeira continua bem perto das suas raizes. Talvez um dia chegue a Portugal. Acho que vale a pena dar uma vista de olhos no recém nascido website www.bioproject.eu ou no myspace em www.myspace.com/thebioproject.

Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

O NATAL NA POLÓNIA

NOWA RUDA



Nowa Ruda é uma pequena e pacata cidade polaca situada já bem perto da fronteira com a República Checa. Um tanto ou quanto escura de inverno, mas com a felicidade de ter a seu lado a natureza dos campos montanhosos. Depois de alguns meses na cosmopolitana Budapeste foi bom voltar a respirar a terra e as coisas naturais que nela nascem. Este ano Nowa Ruda havia escapado à neve que habitualmente cai nesta altura, por isso só nas montanhas pudemos desfrutar da sua beleza. A neve não era muito densa, o que premitiu a nossa subida ao topo de um dos pontos mais altos da montanha. Não pude deixar de apreciar intensamente aquele cenário, um apreciar de olhos mediterrâneos, de olhos que não se habituaram a olhar mantos de flocos brancos nas árvores. Brincámos um pouco, não muito, pois o tempo escasseara e depressa tivemos que voltar a casa. Tudo porque as horas do jantar de natal na Polónia são bastante distintas das horas do jantar de natal em Portugal. Nunca antes havia passado a ceia natalícia fora de Portugal, ou melhor, fora da Marinha Grande. Foi interessante e muito especial olhar para as diferenças existentes entre as duas culturas. Todavia, na Polónia, assim como em Portugal, para além das prendas que se trocam, a comida é o mais importante no desfrutar deste dia. A grande diferença está nas horas. O nosso jantar começou por volta das quatro da tarde. Ás seis trocámos as prendas e ainda restou um tempito para descanso até que nos voltassemos a encontrar à meia noite na igreja da cidade para os cânticos natalícios. Disseram-me que é o único dia do ano em que a igreja fica repleta de fiéis. E estava sim, católicos ou não todos pareciam ter tido como destino da meia noite a igreja de Nowa Ruda. Não cantei. Subi as escadas para o andar de cima e fui ao encontro do organista. Fiquei ali por alguns minutos. Foi a primeira vez que vi o orgão grande de uma igreja e obviamente também a primeira vez que vi alguém tocar nele. Em Nowa Ruda bebi cerveja quente, como se fosse chá, quente mesmo. Quando me falaram pela primeira vez pensei que fosse brincadeira. Mas não, eles bebem mesmo cerveja quente. Eu também bebi e não me soube nada mal.

Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2007

UMA PARAGEM PELO CAMINHO

CRACÓVIA



Doze horas depois da partida na estação Keleti, chegámos a Cracóvia, a primeira paragem na nossa viagem até Nowa Ruda onde iriamos passar a nossa ceia natalícia. Demos os primeiros passos na capital cultural polaca ainda antes do sol aparecer. A cidade deserta, adormecida na noite e no frio de inverno que ainda assim continuava sem neve, algo anormal nesta altura do ano. Caminhámos até à praça principal e caminhámos já na praça principal. Ao redor da igreja Mariacki tivemos os primeiros sinais de que o dia estava a começar. Ás 6h em ponto escutámos a melodia do trompete que é tocado duas vezes por dia numa das torres da Mariacki. O som voava suavemente pela silenciosa praça misturando-se apenas com o cantar de escassos pássaros que pareciam ter acabado de acordar tendo como missão alertar-nos para o dia que ali nascia. Percorremos mais algumas ruas e atravessámos ao largo de um dos jardins da cidade. Chegámos ao castelo Wawel e dentro das suas muralhas visitámos a bonita catedral com o mesmo nome do castelo. À saída o dia parecia finalmente ter vencido a noite. Fomos ao distrito judeu e olhámos para algumas sinagogas do lado de fora. Ao almoço provei os primeiros pratos polacos num restaurante judeu. A sopa vermelha Barsz Czerwony é deliciosa, assim como o Pieróg Ruski também o é. Quando saimos do restaurante pouco mais restou. Uma caminhada de volta à estação para apanhar o comboio com destino a Wroclaw. Em Wroclaw apenas tempo para trocar de comboio e seguir para Nowa Ruda.

Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

ESTILHAÇOS



Orgulhosamente o meu nome vai estar ligado à edição em disco do Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael. A foto em cima estará na contracapa do trabalho gráfico do disco. Foi captada em Budapeste em Setembro deste ano. Uma pequena contribuição que em mim me deixa um grande contentamento.

AS DANÇAS

Gosto de beber uma cerveja no bar mais próximo depois de acabar o meu dia de trabalho. De me descalçar e sentar quase deitado numa das casas de chá que conheci nestes últimos dias. De jantar e ficar para mais um copo de vinho, ou dois, no Castro. De me sentar no barco A38 a ver os outros barcos passarem ao lado, ou então, depois de anoitecer, descer ao porão para ver quem está a actuar. De ir a um concerto rock num dos clubes da cidade. De me sentar numa esplanada a ler a agenda da Pestiest, ou de caminhar à noite perto do Danúbio e esperar pela hora em que as luzes que iluminam o Parlamento e o Palácio Nacional se apaguem, todas em simultâneo. Mas decidi escrever principalmente porque gosto de sentir a energia e a alegria da dança tradicional húngara, e por mais coisas diferentes que eu aqui faça, ver e tentar dançar a música húngara é das que mais me faz não esquecer que não estou em casa. Ontem mais uma vez decidi ir a Almassy Tér, é engraçada a forma como os húngaros partem para a dança depois de ouvirem os primeiros acordes, escolhem os passos e pernas hajam daí para a frente. Tudo em redor, no café, no corredor e na sala de dança é cheio de vivacidade e um barulhento espirito festivo que faz esquecer a triste e solitária personalidade que caracteriza os húngaros. A verdade é que penso que consigo achar pontos de ligação entre a forma de como eles encaram as danças e a sua personalidade ou os seus actos no dia-a-dia. Os movimentos inocentemente brutos, a procura em ser o mais forte e mais rápido, o querer dançar em grupo e outras vezes não, ou todo o esforço esgotado de uma vez deixando os seus corpos mergulhados em suor. Gosto de descer as escadas do salão, regressar à rua e saltar enquanto caminho até casa… Como um menino que está sempre bem disposto. É o que sinto no final.

Segunda-feira, 20 de Novembro de 2006

NA GRANDE PLANÍCIE HÚNGARA

DEBRECEN



À excepção de uma semana onde o frio atacou em força e alguma neve começou a cair em Budapeste, os últimos dias na Hungria têm sido bastante agradáveis e óptimos para partir à descoberta de algumas cidades ou vilas húngaras. Passei por Dombori, Szeksárd, Tolna e Pécs a sul do país, mas a visita a Debrecen foi a que mais me ficou na memória. Debrecen é uma das mais importantes cidades húngaras, está situada a leste de Budapeste e a escassos quilómetros da fronteira com a Roménia. Foi considerada capital da Hungria por diversas vezes, a última das quais em 1944 após a segunda guerra mundial. Debrecen é uma das cidades irmãs de Setúbal. O meu primeiro contacto, depois da curta passagem da estação de comboios para o carro que nos levou ao local que nos acolheu, foi o complexo de banhos termais, e foi também um dos pontos altos da visita a Debrecen. No dia seguinte subimos à torre do templo Nagy e dali a praça Kalvin fica toda a nossos pés. Entre o vai e vem de pessoas e eléctricos em movimento na cidade, os pássaros rodeavam a torre do templo e deslocavam-se em grupos de edifício para edifício saboreando o apetitoso sol. Antes havia imaginado uma Hungria completamente negra e sem sol por esta altura, mas assim não tem sido. A praça Kalvin parece ser o lugar preferido para partilhar algumas conversas de rotina e desfrutar de um pequeno descanso. As pessoas sentam-se ao longo dos diversos bancos da praça e observam o evoluír do dia e da vida na cidade. Assim como nós o fizemos por alguns minutos antes do primeiro café quase ao final da manhã. Caminhámos ao longa da rua Piac, passámos o templo Csonka e visitámos o museu Déri. No museu, à excepção da triologia de pinturas de Mihály Munkácsy e de algumas imagens dos bombardeamentos a Debrecen durante a segunda guerra mundial, nada me ficou na memória. Tudo me pareceu bastante saudável durante a visita à segunda maior cidade do país dos magiares e será um prazer regressar.

Quinta-feira, 26 de Outubro de 2006

BUREK E OS BURACOS NOS BÁLCÃS

NOVI SAD / BELGRADO



Chegada a Novi Sad, tempo só para pousar a mala no chão e já alguém metia um copo de Rakija (ou Palinka) na minha mão. Depois de mais outro ou dois os movimentos já não são os mesmos. Mesmo assim ainda deu para dar um salto lá abaixo e matar a fome com a primeira Pljeskavica sérvia. Depois, apenas mais uma ou duas palavras e comecei a fechar os olhos, o normal desfecho após uma viagem de 7 horas e uns quantos cálices de Rakija. Acordei de manhã com uma vontade enorme de ver a Sérvia pela primeira vez, de dia. O sol em finais de Outubro era de verão e foi quase sempre tema de inicio de conversa entre mim e as diversas pessoas que foi conhecendo. Todos me disseram que é pequena a probabilidade de apanhar um tempo assim nesta altura do ano. O nosso primeiro destino foi a praça central da cidade onde nasceu também a vistosa igreja romana católica "Imena Marijinog". Percorremos as ruas pedestres cheias de cafés e lojas entre a igreja e o parque "Danúbio". Provámos o famoso Burek e bebêmos o iogurte como manda a tradição sérvia, este foi o primeiro Burek de uns quantos que fui tentado a comer durante a estadia na Sérvia. Visitámos o forte de Novi Sad do outro lado do Danúbio, é uma das maiores atracções da cidade. A imagem que mais me recordo deste passeio é a dos restos que sobraram de uma das pontes que atravessava o Danúbio após os bombardiamentos da NATO em 1999. Passados cerca de 7 anos as marcas ainda estão presentes. Para o jantar, o Gabi levou-nos a provar mais algumas especialidades sérvias, mas desta vez fiquei fora da Rakija. A cidade é agradável, mas parecida com muitas outras que visitei antes. Acima de tudo foi bom conhecer algumas pessoas que me ajudaram a perceber melhor a história recente do país. Viagem curta de Novi Sad até Belgrado, às portas da cidade está plantada uma comunidade cigana que, à primeira vista me pareceu um grande monte de lixo. Saímos para o centro, já era noite, comprámos mais uns dinares e sentámo-nos num dos restaurantes ao largo da praça Terazije. Depois todo o caminho percorrido entre a Terazije e o forte Kalemegdan está replecto de lojas, cafés, restaurantes e pessoas. Parámos por instantes na praça da Républica antes de visitar o forte. Das diversas igrejas que vi, destaco o templo ortodoxo de Santo Sava, enorme por fora e quase vazio por dentro devido à reconstrucção de que está a ser alvo. Mas nem por isso as pessoas deixaram de o visitar, por entre ruídos e materiais de obras, as velas são acessas e ali se continuam a prestar rezas diárias. Mais tarde, por acidente fomos parar a um grande mercado de rua, interessante como todos os tipos de produtos eram expostos nas bancas lado a lado, vi um livro à venda por 10 dinares, significa cerca de 0,15 euros. Disseram-me que o edificio oficial do mercado está em reconstrucção e por isso os vendedores ocuparam umas das perpendiculares à praça Terazije. Antes de regressar a Budapeste passámos por dois edificios grandes semi-destruídos, só posso imaginar que tenham sido bombas. Mas não tive tempo para perguntar a ninguém. Estranho é estarem ali, assim abandonados. Talvez não seja uma prioritária despesa num país que me pareceu ter duas faces bastante distintas… A pobre e a moderna. Depois, só mesmo tempo para meter na bagagem um Burek para a viagem.

PORQUE É QUE EU GOSTO DE BUDAPESTE

Após a minha primeira visita, achei que seria bom voltar e tentar conhecer melhor a cidade, isto porque há muito que tenho em mente que Budapeste é uma cidade especial. Cinco meses depois da minha chegada continuo a pensar que Budapeste é de facto especial, melhor, comecei a pensar que Budapeste é ainda mais especial do que eu pensava. Acho que por mais tempo que passe aqui, nunca vou conseguir saber o verdadeiro porquê de Budapeste ser tão especial para mim. São as pessoas, são as ruas, os edificios, os eléctricos, as pontes, os cafés ou o rio… No fundo, acho que é tudo isto em movimento, é a vida e a energia que ela tem. Tudo tão simples, mas tão intenso e misterioso. A cidade move-se peculiarmente, a sua magia em contraste com a simplicidade daquilo que se avista, despe-me e deixa-me sem expressão. Penso que nunca o conseguirei explicar como gostaria. Apesar de tudo decidi escrever algo. Budapeste é tão grande que não a consigo apanhar com palavras.

Terça-feira, 10 de Outubro de 2006

PAUSA NA "HRVATSKA"

ZAGREB



Aproveitei o fim de semana para dar uma escapadinha até Zagreb. A cidade dos eléctricos azuis, e outros de outras cores. Tantos. A viagem entre Budapeste e Zagreb demorou cerca de 6 horas. Quanto o comboio chegou à estação de Zagreb, a "Glavni Kolodvor", já o Josip esperava por mim. Semanas antes tinha eu feito o mesmo com ele em Budapeste, logo nessa altura haviamos combinado que mais tarde seria eu a visitá-lo na Croácia. E assim aconteceu. Da Glavni Kolodvor até à praça principal, "Bana Josipa Jelacica", demorámos dez minutos, mesmo antes de largar a minha mochila em casa do Josip, ele fez questão de começar a apresentar-me a cidade. O Josip, apesar de estar a acabar o curso de advocacia, sempre teve um enorme desejo em estudar história, foi o que ele me contou. E foi por isso que o ouvi falar com tanto gosto sobre aquilo que sabia acerca da história da cidade, das ruas, dos monumentos, das estátuas, e de tudo o resto que vimos por onde íamos passando. O centro de Zagreb é mais pequeno do que aquilo que eu imaginava. Depois de uma visita à Catedral, à igreja de Santo Marka e à torre Lotrscak na cidade velha, parámos para beber a primeira cerveja croata. Só depois decidimos ir a casa pousar a minha bagagem. Voltámos a passar pela praça principal e através da rua Masarykova depressa se chega ao edificio amarelo do teatro nacional croata. Ali apanhámos o eléctrico que nos levou até perto do apartamento do Josip. A noite em Zagreb durante o fim de semana é agitada, não conseguimos entrar no autocarro que queriamos usar para chegar a um dos clubes nocturnos, tal era a confusão de pessoas. Fomos a pé. Domingo a cidade pareceu-me deserta. Saímos para o almoço. O Josip arranjou um cartão de estudante é fomos almoçar à cantina da universidade, à saída paguei 6,33 kunas por uma sopa, uma costoleta e arroz, um pedaço de pão e outro de bolo. Tudo junto dá cerca de 1 euro. Antes conheci a Ivana, uma amiga do Josip, fazia anos e desejámos-lhe feliz aniversário, ela acompanhou-nos no almoço e depois serviu-nos café. Foi bom conhecer a Ivana, assim como a Zeljka e o Kruno, todos eles foram bastante simpáticos. Contagiaram-me com a sua boa disposição croata. É bom ter alguém que nos diga o que é, e como é uma cidade, assim podemos viver os dias mais de acordo com ela mesma. O Josip teve um importante papel ao tentar ensinar-me, o que para ele, é Zagreb.

Quarta-feira, 4 de Outubro de 2006

BUDAPESTE

BUDAPESTE - 02 OUTUBRO, 2006

Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006

O PARTILHAR CULTURAS

TŰZRAKTÉR - BUDAPESTE



Começa hoje o ”Let’s Share Cultures”, durante estes dois dias vou estar no Tűzraktér a tentar ajudar a mostrar algo de Portugal a quem, aqui em Budapeste, estiver interessado. Junto com as minhas fotos sobre a Hungria, vão estar em exposição as fotos da Réka Szalkai e da Szófia Palyi sobre Portugal. O programa é extenso, destaco os concertos portugueses do Adolfo Luxúria Canibal e do António Rafael, com a apresentação do Estilhaços, o concerto de Almaplana e ainda de Umpletrue. Assim como as video projecções de documentários e curtas-metragens, na sua maioria, cedidas pela Fundação Calouste Gulbenkian. Este evento tem o apoio do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal em Budapeste, a eles desejo a melhor sorte e um grande obrigado por me terem ajudado a passar para a práctica esta minha ideia.

O programa:
www.planetclub.hu/bruno/index.htm

Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006

REVOLUÇÃO (OU APENAS VIOLÊNCIA)

BUDAPESTE



Hoje vou dormir no escritório, mas isso pouco importa tendo em conta aquilo que se passa atrás de mim, na rua. A Hungria está revoltada, ou pelo menos parte grande dela. As pessoas estão na rua e os confrontos aumentam de hora para hora. Há quem lhe chame revolução, mas outros preferem dizer que são meia dúzia de fanáticos de extrema direita que estão a causar a onda de violência em Budapeste. Tudo depois do Primeiro Ministro húngaro, Ferenc Gyurcsany, preferir alguns comentários acerca da situacão económica do país, onde mete completamente em causa a competência e seriedade do governo húngaro. As palavras foram gravadas secretamente e expostas a público gerando a revolta da população, principalmente das classes da oposição. Quanto a mim deixo-me estar quietinho. Tentei sair á rua para fazer uma ou duas fotos mas a policia estava a bloquear todos os acessos ao centro dos protestos, neste momento em Blaha Lujza. Antes tinha passado por lá, no preciso momento em que as carrinhas chegavam com os policias, o tempo de vir ao escritório buscar a máquina foi suficiente para me bloquearem o caminho de volta. Tudo o que consegui foi ouvir carros de bombeiros e policia a buzinar de um lado para o outro e um cheirinho de gáz lacrimogénio nos olhos, mas como já o apanhei no fim, foi fácil escapar. Os autocarros estão parados, ou talvez meia cidade esteja parada para protestar e também ajudar a fazer violência. Eu não tenho como chegar a casa hoje, mas tudo bem. Só é pena pensar que se faz história atrás de mim e eu nem uma televisão tenho para olhar.

Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

ELA

Quero tocar-te, tocar-te sem que quase o sintas, suavemente, em baixo, de baixo para cima, em cima. Os teus olhos estão fechados, saboreias os meus movimentos. Sentes-te bem, muito bem, mas quase não sentes que te estou a tocar. Depois eu também fechava os olhos, continuava a tocar-te e deixava cair a minha cabeça sobre a cama, a tocar-te de forma a que quase não o sentisse na ponta dos dedos, suavemente. Suavemente a minha cabeça deslocava-se e parava pertinho da tua. Os teus cabelos misturavam-se com os meus. Depois, juntinhos, os nosso lábios adormeciam felizes.

Sexta-feira, 8 de Setembro de 2006

PILISSZENTLASLO

PILISSZENTLASLO



A falta de tempo tem-me mantido longe deste espaço. Gostava de escrever muito sobre o meu último fim de semana, mas a cabeça já me está a pesar, mesmo assim, vou tentar. Na verdade fiquei fora de Budapeste durante cinco dias, quando voltei tive a sensação de ter estado fora durante três meses. Por outro lado estou em Budapeste à três meses e parece que cheguei à cinco dias. Há coisas que não sei explicar, simplesmente são assim. O EVS Clube é um encontro e treino para jovens voluntários e foi o que me fez mover de Budapeste para Pilisszentlaslo, uma pacata vila a norte da capital húngara e a escassos quilómetros de Szentendre. Além de ter trocado experiências com outros jovens de 13 países diferentes, o treino, o descanso e a simples liberdade que lá senti, fizeram-me estraordináriamente bem ao espirito. Perguntaram-me se me considerava como que um ”representante” de Portugal no meio de ”representantes” de outros países. Respondi que não, de maneira alguma, mas que no fundo gostava de perceber, em cada um deles, a imagem e a cultura dos seus respectivos países. Falámos sobre a Arménia e os seus costumes, reparámos que somos diferentes, mas que não é dificil respeitármo-nos. Falámos sobre as regras do Alcorão, descobrimos que alguns de nós não conseguiriam viver atados a ele, mas que podemos partilhar aventuras ou conversas com aqueles que o fazem. Tentámos partilhar tradições na cozinha, fui incapaz de comer o prato polaco que me tentaram oferecer. Mas a tortilha espanhola feita por um dinamarquês estava deliciosa. Encontrámos diferentes caminhos durante as actividades que desenvolvemos, mas acabámos todos por conseguir o que foi proposto. Sempre tentámos e conseguimos encontrar o balanço ou o ponto ideal quando as diferentes ideias apareciam devido as nossas diferenças socio-culturais. Por vezes sentia-me como um menininho a brincar e ao mesmo tempo a crescer, outras vezes sentia-me simplesmente um menino, não interessava se estava a crescer, estava lá e a atmosfera, o cheiro, os sons eram saudáveis e ao mesmo tempo puros e inocentes. Foi bastante bom perceber que todos conseguimos descer e subir juntos, e não interessa se somos diferentes, o que importa é sabermos ser diferentes.

SZENTENDRE

SZENTENDRE - 02 SETEMBRO, 2006

Terça-feira, 8 de Agosto de 2006

OMAR, O ISLÃO E OS GYROS

Omar nasceu na Bélgica, é filho de um marroquino e de uma francesa. Conheci-o há poucos dias em Budapeste durante a sua visita turística à capital húngara. Não é que eu fale melhor que ele, mas o seu inglês com sotaque francês origina-me umas valentes risadas, não são maldosas, são apenas risadas de puto. Risadas de putos que facilmente encontram razões para o fazer. Tento sempre escapar-lhe, e muitas vezes consigo. Não é que não me saiba bem ter risadas de puto, até pelo contrário, mas por razões claras, neste caso, tento evitá-las. Omar vive em Bruxelas desde a sua nascença, todavia as relações com o Alcorão e com a religião muçulmana são bastante fortes. Omar aprendeu árabe na Bélgica, utiliza-o diáriamente na comunicação com o seu pai e visita Marrocos todos os anos. Apesar da sua vontade em conhecer uma discoteca húngara e talvez dar um pézinho de dança com uma das meninas bonitas da zona, acabámos mais uma vez por optar por um dos clubes ”underground” de Budapeste. Entretanto, já lá, ficámos ambos com fome e lembrei-me que podiamos comer um ”Gyros”, ele achou boa ideia e fomos. Disse-lhe ainda que aquele ”Gyros Büfé” era o melhor que eu conhecia em Budapeste. Pedi o meu. Enquanto a empregada o preparava, o Omar perguntou-me se a carne era de porco. Já tinha comido aquilo algumas vezes, mas não lhe sabia responder. Tentou perguntar à empregada, ela nem sequer o entendeu. Acabou por pedir o mesmo que eu. Andámos novamente em direcção ao clube de onde tínhamos vindo. Acabei o meu ”Gyros” e reparei que ele guardava o dele sem prácticamente o ter trincado, primeiro pensei que o estivesse a guardar para o saborear sentado e com mais calma. Mas com um leve suspiro, ele voltou-se para mim e disse: ”É porco”… Só então percebi o que se passava. No Islão o porco é alimento proibido. Foi a primeira vez que comi dois ”Gyros” seguidos. Agora prometi que só daqui a alguns dias (ou semanas) os voltarei a comer. Senti-me um bocado culpado e disse ao Omar que o poderia levar a outro sítio e esperar por ele. Ele achou que aguentava mais um bocado. Como recompensa prometi que da próxima vez iria com ele a uma discoteca.

Sexta-feira, 4 de Agosto de 2006

BUDAPESTE

BUDAPESTE - 01 AGOSTO, 2006