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terça-feira, 8 de maio de 2007

O BICA EM PESTE

CONCERTO



Ainda antes do meu não aguardado regresso a terras lusas, em Budapeste irei ter o prazer de mais uma vez assistir ao reunir do contra-baixo do Carlos Bica, da guitarra do Frank Möbus e da bateria do Jim Black. A tour do "Believer" passa pela Hungria, e se não me engano, será a primeira oportunidade para os magiares sentirem a mágica ressonância das cordas do Bica. É já dia 30 de Maio no barco A38, e quem está… está, quem não está talvez esteja num dos outros. A tour do "Believer" passa ainda na Alemanha, Austria, Suiça, Holanda e Portugal, estejam atentos.

Carlos Bica na Web:
www.carlosbica.com

segunda-feira, 30 de abril de 2007

BÓSNIA E OS REENCONTROS

SARAJEVO



A visita à Bósnia-Herzegovina marcou o meu regresso aos Balcãs, aos buracos, ao Burek e a um inesperado encontro. O país divide-se em dois estados, o estado de Bósnia e o estado de Herzegovina, Sarejevo é capital e situa-se no estado de Bósnia. Após o final da Guerra Fria, Sarajevo é agora uma cidade nova mas com muitas marcas das recentes brigas entre sérvios, croatas e bósnios. A diversidade religiosa é enorme, o islamismo é a aquela que aparenta ter mais poder, mas sendo a cidade fortemente habitada por sérvios, na sua maioria cristãos ortodoxos, e por croatas, maioritariamente católicos romanos, a estabilidade religiosa e o desenvolvimento económico-cultural deixa muito a desejar e a imagem que me ficou é que tudo está muito pouco organizado e as regras são poucas. No centro da cidade as pessoas pedem dinheiro, e junto dos mais adultos sempre se vêm também crianças esticando a mão na esperaça de receber uma resposta em troca, sinceramente fiquei com a ideia de que muitos deles nem sequer têm a noção do que fazem. Um rapaz, novito mas bem aparentado, de fato de treino e mochila da escola, completamente normalissimo, parecia ter acabado de sair da escola, e enquanto percorria o caminho até casa aproveitava para pedir dinheiro a todos aqueles que encontrava no caminho, fiquei com a nitida impressão que o fazia apenas porque havia crescido num mundo onde as pessoas o fazem, e fazem-no parecendo ser a coisa mais natural. E assim ele também fazia. E caminhando por entre as pequenas lojas de madeira do mercado central, os exemplos são muitos. Mas a minha experiência com dinheiros na Bósnia foi ainda maior. Chegámos num Sábado e sem pensar muito, apenas tinhamos na carteira forints húngaros, cedo percebemos que poderia ser um problema, todo o fim de semana não encontrámos quem nos aceitasse trocar forints por marcos bósnios. No Sábado conseguimos no hostel um empréstimo de 20 marcos, mas que pouco duraram (cerca de 10 euros), no Domingo previ dia dificil, andar ali sem dinheiro não era saudável e quase me senti obrigado a juntar-me aos outros na caça de alguns trocos. Mas por vezes as coisas são mesmo imprevisiveis e quando menos as espero, elas acontecem, ouço alguém chamar-me, de repente nem liguei, mas ouvi outra vez e para espanto meio, no meio de uma das ruas de Sarajevo encontro um colega conterraneo que já não avistava há muito. E mais palavras para quê! passado o espanto, seguem-se as cervejas e a tão preciosa troca de forints húngaros em marcos bósnios, a minha salvação na bósnia! Depois não podia deixar de aproveitar a ocasião para voltar a deliciar-me com o Burek, a semelhança da Sérvia, também na Bósnia o Burek é o forte da gastronomia e mais uma vez me babei por mais. Depois de me descalçar, entrei pela primeira vez dentro de uma mosquita, segundo li, a maior da Europa, à excepção das que existem na Turquia. Depois estivemos no local onde foi assassinado o arquiduque austro-húngaro e presumível herdeiro ao trono imperial dos Habsburgos, Franz Ferdinand. O assassinato marcou o arranque da primeira Guerra Mundial. De resto, foi bom subir um pouco de um dos montes que rodeiam a capital bósnia e olhar para o grande vale onde Sarajevo quis nascer.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

MURO DAS MEMÓRIAS

BERLIM



Escondidas numa Berlim agora completamente modernizada continuam as imensas memórias da actividade nazi, das guerras, da cortina de ferro. Escondidas ou nem tanto. Se por um lado me parecem, os berlinenses, querer fugir a tais antepassados, outros sempre haverão querendo neles entrar, e eu não pude deixar de o tentar fazer. Chegar, sentir o cheiro, sentir o palco de mil histórias da antiga alemanha que foram crescendo comigo e com certeza um pouco com todos nós, muitas vezes sem nelas pensar ou sem a elas dar muita importância. Ouvi falar de muitas histórias antes, mas agora é diferente, agora consigo quase sentir-me dentro delas, mesmo sabendo o quanto tudo mudou. Apesar dos anos que lá vão, dos montes de edificios apagados e dos novos que em seu lugar cresceram, do muro que já não existe, de uma Berlim de hoje completamente diferente do que era, apesar de tudo isto estando lá acaba-se sempre por sentir toda a energia e intensidade daqueles anos que teimam em não ser esquecidos ou posso dizer, nunca o serão. Entre Budapeste e Berlim ficam cerca de 900 km de estrada que atravessam 3 países antes de entrar a sul da Alemanha. Decidimos saltar para a estrada, esticar o dedo e esperar pela boa vontade dos condutores que passavam. O resultado, uma viagem longa, barata, e com algumas bons palmos de conversa com aqueles que pelo caminho nos partilharam o seu espaço. Gyor, Bratislava, Brno, Praga, Dresden e por fim a chegada. Em Berlim, o primeiro destino, casa da Kristina que nos deu um bocado do espaço do seu quarto durante estes três dias. Acabei por relacionar toda a vida e imagem do seu apartamento com as pessoas alemãs, sobretudo com a imagem que eu tenho das pessoas alemãs do pós-guerra. Esta realidade encaixou perfeitamente naquilo que meu imaginário havia criado. Tudo tão diferente, pintado, escrito, colorido... As pessoas, os cabelos delas, as roupas delas, tudo parece tão novo, tão aberto. Berlim é definitivamente uma cidade moderna, de mente aberta e onde as alternativas existem, Berlim não é uma cidade banal, Berlim é sem dúvida um lugar onde as ideias se sentem flutuar. Por outro lado, a Berlim de hoje deixou-me sentir um pequeno vazio, mas um vazio meu e egoista de quem quer saltar mais ainda para cima da história, ela estava lá, mas com o cenário completamente refeito, parecendo ter havido vontade de não deixar rastos de que algo se tenha ali passado. Mas sim, a cidade foi completamente destruida durante a segunda guerra e com certeza não há alemão que não tenha feito os possiveis para apagar qualquer vestigio da destruição. Há uma excepção, a Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche (a Igreja das Memórias), foi deixada tal como ficou após a invasão dos Aliados, daí o nome que tem. Em plena Los Angels Platz, a Igreja das Memórias faz frente aos mais variados e exuberantes estilos modernos que os edificios em sua volta ostentam, mas que acabam desvalorizados no meio de magestosa mostra da realidade da guerra. A poucos metros da Los Angels Platz fica o Zoologischer Garten e a estação que não poderia deixar de me fazer recordar Christiane F. Daqui metade a pé e outra metade no autocarro 100 e ficámos em frente ao Reichstag. Depois, um pouco mais, passamos o Brandenburger Tor e acabámos em Alexander Platz a imaginar a vista que se poderá ter do topo da Fernsehturm (a Torre de Televisão). Depois caminhamos na rua Kastanienallee ao largo dos imensos e diversos bares e lojas. Berlim vale pela diversidade cultural resultante de um povo "renovado" e de mente aberta. Kristina contou-nos algumas histórias sobre as suas (más) experiências com alguns Nazis, ainda existe uma relativa comunidade em Berlim contra quem, segundo a Kristina, a policia parece continuar a travar lutas. A nosso último destino foi Kréuzberg, antes ouvimos falar muito desta zona da cidade e não fomos embora sem visitar, infelizmente deu apenas tempo para uma cerveja ao ritmo da Bundesliga, um café ruidoso onde fanáticos de futebol dividiam apostas. Berlim é uma cidade bonita, não da mesma forma que Budapeste é, mas de outra talvez mais importante. O regresso à Hungria não foi tão fácil como a ida para a Alemanha, mas por fim lá chegámos a casa... Satisfeitos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

BIO-PROJECTO

Encontrei-os mesmo aqui ao lado mas o rasto vem da França e da Polónia. Os B.I.O Project estão agora a dar os primeiros passos. Depois do palco montado em Budapeste a brincadeira continua bem perto das suas raizes. Talvez um dia chegue a Portugal. Acho que vale a pena dar uma vista de olhos no recém nascido website www.bioproject.eu ou no myspace em www.myspace.com/thebioproject.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

O NATAL NA POLÓNIA

NOWA RUDA



Nowa Ruda é uma pequena e pacata cidade polaca situada já bem perto da fronteira com a República Checa. Um tanto ou quanto escura de inverno, mas com a felicidade de ter a seu lado a natureza dos campos montanhosos. Depois de alguns meses na cosmopolitana Budapeste foi bom voltar a respirar a terra e as coisas naturais que nela nascem. Este ano Nowa Ruda havia escapado à neve que habitualmente cai nesta altura, por isso só nas montanhas pudemos desfrutar da sua beleza. A neve não era muito densa, o que premitiu a nossa subida ao topo de um dos pontos mais altos da montanha. Não pude deixar de apreciar intensamente aquele cenário, um apreciar de olhos mediterrâneos, de olhos que não se habituaram a olhar mantos de flocos brancos nas árvores. Brincámos um pouco, não muito, pois o tempo escasseara e depressa tivemos que voltar a casa. Tudo porque as horas do jantar de natal na Polónia são bastante distintas das horas do jantar de natal em Portugal. Nunca antes havia passado a ceia natalícia fora de Portugal, ou melhor, fora da Marinha Grande. Foi interessante e muito especial olhar para as diferenças existentes entre as duas culturas. Todavia, na Polónia, assim como em Portugal, para além das prendas que se trocam, a comida é o mais importante no desfrutar deste dia. A grande diferença está nas horas. O nosso jantar começou por volta das quatro da tarde. Ás seis trocámos as prendas e ainda restou um tempito para descanso até que nos voltassemos a encontrar à meia noite na igreja da cidade para os cânticos natalícios. Disseram-me que é o único dia do ano em que a igreja fica repleta de fiéis. E estava sim, católicos ou não todos pareciam ter tido como destino da meia noite a igreja de Nowa Ruda. Não cantei. Subi as escadas para o andar de cima e fui ao encontro do organista. Fiquei ali por alguns minutos. Foi a primeira vez que vi o orgão grande de uma igreja e obviamente também a primeira vez que vi alguém tocar nele. Em Nowa Ruda bebi cerveja quente, como se fosse chá, quente mesmo. Quando me falaram pela primeira vez pensei que fosse brincadeira. Mas não, eles bebem mesmo cerveja quente. Eu também bebi e não me soube nada mal.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

UMA PARAGEM PELO CAMINHO

CRACÓVIA



Doze horas depois da partida na estação Keleti, chegámos a Cracóvia, a primeira paragem na nossa viagem até Nowa Ruda onde iriamos passar a nossa ceia natalícia. Demos os primeiros passos na capital cultural polaca ainda antes do sol aparecer. A cidade deserta, adormecida na noite e no frio de inverno que ainda assim continuava sem neve, algo anormal nesta altura do ano. Caminhámos até à praça principal e caminhámos já na praça principal. Ao redor da igreja Mariacki tivemos os primeiros sinais de que o dia estava a começar. Ás 6h em ponto escutámos a melodia do trompete que é tocado duas vezes por dia numa das torres da Mariacki. O som voava suavemente pela silenciosa praça misturando-se apenas com o cantar de escassos pássaros que pareciam ter acabado de acordar tendo como missão alertar-nos para o dia que ali nascia. Percorremos mais algumas ruas e atravessámos ao largo de um dos jardins da cidade. Chegámos ao castelo Wawel e dentro das suas muralhas visitámos a bonita catedral com o mesmo nome do castelo. À saída o dia parecia finalmente ter vencido a noite. Fomos ao distrito judeu e olhámos para algumas sinagogas do lado de fora. Ao almoço provei os primeiros pratos polacos num restaurante judeu. A sopa vermelha Barsz Czerwony é deliciosa, assim como o Pieróg Ruski também o é. Quando saimos do restaurante pouco mais restou. Uma caminhada de volta à estação para apanhar o comboio com destino a Wroclaw. Em Wroclaw apenas tempo para trocar de comboio e seguir para Nowa Ruda.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

ESTILHAÇOS



Orgulhosamente o meu nome vai estar ligado à edição em disco do Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael. A foto em cima estará na contracapa do trabalho gráfico do disco. Foi captada em Budapeste em Setembro deste ano. Uma pequena contribuição que em mim me deixa um grande contentamento.

AS DANÇAS

Gosto de beber uma cerveja no bar mais próximo depois de acabar o meu dia de trabalho. De me descalçar e sentar quase deitado numa das casas de chá que conheci nestes últimos dias. De jantar e ficar para mais um copo de vinho, ou dois, no Castro. De me sentar no barco A38 a ver os outros barcos passarem ao lado, ou então, depois de anoitecer, descer ao porão para ver quem está a actuar. De ir a um concerto rock num dos clubes da cidade. De me sentar numa esplanada a ler a agenda da Pestiest, ou de caminhar à noite perto do Danúbio e esperar pela hora em que as luzes que iluminam o Parlamento e o Palácio Nacional se apaguem, todas em simultâneo. Mas decidi escrever principalmente porque gosto de sentir a energia e a alegria da dança tradicional húngara, e por mais coisas diferentes que eu aqui faça, ver e tentar dançar a música húngara é das que mais me faz não esquecer que não estou em casa. Ontem mais uma vez decidi ir a Almassy Tér, é engraçada a forma como os húngaros partem para a dança depois de ouvirem os primeiros acordes, escolhem os passos e pernas hajam daí para a frente. Tudo em redor, no café, no corredor e na sala de dança é cheio de vivacidade e um barulhento espirito festivo que faz esquecer a triste e solitária personalidade que caracteriza os húngaros. A verdade é que penso que consigo achar pontos de ligação entre a forma de como eles encaram as danças e a sua personalidade ou os seus actos no dia-a-dia. Os movimentos inocentemente brutos, a procura em ser o mais forte e mais rápido, o querer dançar em grupo e outras vezes não, ou todo o esforço esgotado de uma vez deixando os seus corpos mergulhados em suor. Gosto de descer as escadas do salão, regressar à rua e saltar enquanto caminho até casa… Como um menino que está sempre bem disposto. É o que sinto no final.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

NA GRANDE PLANÍCIE HÚNGARA

DEBRECEN



À excepção de uma semana onde o frio atacou em força e alguma neve começou a cair em Budapeste, os últimos dias na Hungria têm sido bastante agradáveis e óptimos para partir à descoberta de algumas cidades ou vilas húngaras. Passei por Dombori, Szeksárd, Tolna e Pécs a sul do país, mas a visita a Debrecen foi a que mais me ficou na memória. Debrecen é uma das mais importantes cidades húngaras, está situada a leste de Budapeste e a escassos quilómetros da fronteira com a Roménia. Foi considerada capital da Hungria por diversas vezes, a última das quais em 1944 após a segunda guerra mundial. Debrecen é uma das cidades irmãs de Setúbal. O meu primeiro contacto, depois da curta passagem da estação de comboios para o carro que nos levou ao local que nos acolheu, foi o complexo de banhos termais, e foi também um dos pontos altos da visita a Debrecen. No dia seguinte subimos à torre do templo Nagy e dali a praça Kalvin fica toda a nossos pés. Entre o vai e vem de pessoas e eléctricos em movimento na cidade, os pássaros rodeavam a torre do templo e deslocavam-se em grupos de edifício para edifício saboreando o apetitoso sol. Antes havia imaginado uma Hungria completamente negra e sem sol por esta altura, mas assim não tem sido. A praça Kalvin parece ser o lugar preferido para partilhar algumas conversas de rotina e desfrutar de um pequeno descanso. As pessoas sentam-se ao longo dos diversos bancos da praça e observam o evoluír do dia e da vida na cidade. Assim como nós o fizemos por alguns minutos antes do primeiro café quase ao final da manhã. Caminhámos ao longa da rua Piac, passámos o templo Csonka e visitámos o museu Déri. No museu, à excepção da triologia de pinturas de Mihály Munkácsy e de algumas imagens dos bombardeamentos a Debrecen durante a segunda guerra mundial, nada me ficou na memória. Tudo me pareceu bastante saudável durante a visita à segunda maior cidade do país dos magiares e será um prazer regressar.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

BUREK E OS BURACOS NOS BÁLCÃS

NOVI SAD / BELGRADO



Chegada a Novi Sad, tempo só para pousar a mala no chão e já alguém metia um copo de Rakija (ou Palinka) na minha mão. Depois de mais outro ou dois os movimentos já não são os mesmos. Mesmo assim ainda deu para dar um salto lá abaixo e matar a fome com a primeira Pljeskavica sérvia. Depois, apenas mais uma ou duas palavras e comecei a fechar os olhos, o normal desfecho após uma viagem de 7 horas e uns quantos cálices de Rakija. Acordei de manhã com uma vontade enorme de ver a Sérvia pela primeira vez, de dia. O sol em finais de Outubro era de verão e foi quase sempre tema de inicio de conversa entre mim e as diversas pessoas que foi conhecendo. Todos me disseram que é pequena a probabilidade de apanhar um tempo assim nesta altura do ano. O nosso primeiro destino foi a praça central da cidade onde nasceu também a vistosa igreja romana católica "Imena Marijinog". Percorremos as ruas pedestres cheias de cafés e lojas entre a igreja e o parque "Danúbio". Provámos o famoso Burek e bebêmos o iogurte como manda a tradição sérvia, este foi o primeiro Burek de uns quantos que fui tentado a comer durante a estadia na Sérvia. Visitámos o forte de Novi Sad do outro lado do Danúbio, é uma das maiores atracções da cidade. A imagem que mais me recordo deste passeio é a dos restos que sobraram de uma das pontes que atravessava o Danúbio após os bombardiamentos da NATO em 1999. Passados cerca de 7 anos as marcas ainda estão presentes. Para o jantar, o Gabi levou-nos a provar mais algumas especialidades sérvias, mas desta vez fiquei fora da Rakija. A cidade é agradável, mas parecida com muitas outras que visitei antes. Acima de tudo foi bom conhecer algumas pessoas que me ajudaram a perceber melhor a história recente do país. Viagem curta de Novi Sad até Belgrado, às portas da cidade está plantada uma comunidade cigana que, à primeira vista me pareceu um grande monte de lixo. Saímos para o centro, já era noite, comprámos mais uns dinares e sentámo-nos num dos restaurantes ao largo da praça Terazije. Depois todo o caminho percorrido entre a Terazije e o forte Kalemegdan está replecto de lojas, cafés, restaurantes e pessoas. Parámos por instantes na praça da Républica antes de visitar o forte. Das diversas igrejas que vi, destaco o templo ortodoxo de Santo Sava, enorme por fora e quase vazio por dentro devido à reconstrucção de que está a ser alvo. Mas nem por isso as pessoas deixaram de o visitar, por entre ruídos e materiais de obras, as velas são acessas e ali se continuam a prestar rezas diárias. Mais tarde, por acidente fomos parar a um grande mercado de rua, interessante como todos os tipos de produtos eram expostos nas bancas lado a lado, vi um livro à venda por 10 dinares, significa cerca de 0,15 euros. Disseram-me que o edificio oficial do mercado está em reconstrucção e por isso os vendedores ocuparam umas das perpendiculares à praça Terazije. Antes de regressar a Budapeste passámos por dois edificios grandes semi-destruídos, só posso imaginar que tenham sido bombas. Mas não tive tempo para perguntar a ninguém. Estranho é estarem ali, assim abandonados. Talvez não seja uma prioritária despesa num país que me pareceu ter duas faces bastante distintas… A pobre e a moderna. Depois, só mesmo tempo para meter na bagagem um Burek para a viagem.

PORQUE É QUE EU GOSTO DE BUDAPESTE

Após a minha primeira visita, achei que seria bom voltar e tentar conhecer melhor a cidade, isto porque há muito que tenho em mente que Budapeste é uma cidade especial. Cinco meses depois da minha chegada continuo a pensar que Budapeste é de facto especial, melhor, comecei a pensar que Budapeste é ainda mais especial do que eu pensava. Acho que por mais tempo que passe aqui, nunca vou conseguir saber o verdadeiro porquê de Budapeste ser tão especial para mim. São as pessoas, são as ruas, os edificios, os eléctricos, as pontes, os cafés ou o rio… No fundo, acho que é tudo isto em movimento, é a vida e a energia que ela tem. Tudo tão simples, mas tão intenso e misterioso. A cidade move-se peculiarmente, a sua magia em contraste com a simplicidade daquilo que se avista, despe-me e deixa-me sem expressão. Penso que nunca o conseguirei explicar como gostaria. Apesar de tudo decidi escrever algo. Budapeste é tão grande que não a consigo apanhar com palavras.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

PAUSA NA "HRVATSKA"

ZAGREB



Aproveitei o fim de semana para dar uma escapadinha até Zagreb. A cidade dos eléctricos azuis, e outros de outras cores. Tantos. A viagem entre Budapeste e Zagreb demorou cerca de 6 horas. Quanto o comboio chegou à estação de Zagreb, a "Glavni Kolodvor", já o Josip esperava por mim. Semanas antes tinha eu feito o mesmo com ele em Budapeste, logo nessa altura haviamos combinado que mais tarde seria eu a visitá-lo na Croácia. E assim aconteceu. Da Glavni Kolodvor até à praça principal, "Bana Josipa Jelacica", demorámos dez minutos, mesmo antes de largar a minha mochila em casa do Josip, ele fez questão de começar a apresentar-me a cidade. O Josip, apesar de estar a acabar o curso de advocacia, sempre teve um enorme desejo em estudar história, foi o que ele me contou. E foi por isso que o ouvi falar com tanto gosto sobre aquilo que sabia acerca da história da cidade, das ruas, dos monumentos, das estátuas, e de tudo o resto que vimos por onde íamos passando. O centro de Zagreb é mais pequeno do que aquilo que eu imaginava. Depois de uma visita à Catedral, à igreja de Santo Marka e à torre Lotrscak na cidade velha, parámos para beber a primeira cerveja croata. Só depois decidimos ir a casa pousar a minha bagagem. Voltámos a passar pela praça principal e através da rua Masarykova depressa se chega ao edificio amarelo do teatro nacional croata. Ali apanhámos o eléctrico que nos levou até perto do apartamento do Josip. A noite em Zagreb durante o fim de semana é agitada, não conseguimos entrar no autocarro que queriamos usar para chegar a um dos clubes nocturnos, tal era a confusão de pessoas. Fomos a pé. Domingo a cidade pareceu-me deserta. Saímos para o almoço. O Josip arranjou um cartão de estudante é fomos almoçar à cantina da universidade, à saída paguei 6,33 kunas por uma sopa, uma costoleta e arroz, um pedaço de pão e outro de bolo. Tudo junto dá cerca de 1 euro. Antes conheci a Ivana, uma amiga do Josip, fazia anos e desejámos-lhe feliz aniversário, ela acompanhou-nos no almoço e depois serviu-nos café. Foi bom conhecer a Ivana, assim como a Zeljka e o Kruno, todos eles foram bastante simpáticos. Contagiaram-me com a sua boa disposição croata. É bom ter alguém que nos diga o que é, e como é uma cidade, assim podemos viver os dias mais de acordo com ela mesma. O Josip teve um importante papel ao tentar ensinar-me, o que para ele, é Zagreb.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

O PARTILHAR CULTURAS

TŰZRAKTÉR - BUDAPESTE



Começa hoje o ”Let’s Share Cultures”, durante estes dois dias vou estar no Tűzraktér a tentar ajudar a mostrar algo de Portugal a quem, aqui em Budapeste, estiver interessado. Junto com as minhas fotos sobre a Hungria, vão estar em exposição as fotos da Réka Szalkai e da Szófia Palyi sobre Portugal. O programa é extenso, destaco os concertos portugueses do Adolfo Luxúria Canibal e do António Rafael, com a apresentação do Estilhaços, o concerto de Almaplana e ainda de Umpletrue. Assim como as video projecções de documentários e curtas-metragens, na sua maioria, cedidas pela Fundação Calouste Gulbenkian. Este evento tem o apoio do Instituto Camões e da Embaixada de Portugal em Budapeste, a eles desejo a melhor sorte e um grande obrigado por me terem ajudado a passar para a práctica esta minha ideia.

O programa:
www.planetclub.hu/bruno/index.htm

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

REVOLUÇÃO (OU APENAS VIOLÊNCIA)

BUDAPESTE



Hoje vou dormir no escritório, mas isso pouco importa tendo em conta aquilo que se passa atrás de mim, na rua. A Hungria está revoltada, ou pelo menos parte grande dela. As pessoas estão na rua e os confrontos aumentam de hora para hora. Há quem lhe chame revolução, mas outros preferem dizer que são meia dúzia de fanáticos de extrema direita que estão a causar a onda de violência em Budapeste. Tudo depois do Primeiro Ministro húngaro, Ferenc Gyurcsany, preferir alguns comentários acerca da situacão económica do país, onde mete completamente em causa a competência e seriedade do governo húngaro. As palavras foram gravadas secretamente e expostas a público gerando a revolta da população, principalmente das classes da oposição. Quanto a mim deixo-me estar quietinho. Tentei sair á rua para fazer uma ou duas fotos mas a policia estava a bloquear todos os acessos ao centro dos protestos, neste momento em Blaha Lujza. Antes tinha passado por lá, no preciso momento em que as carrinhas chegavam com os policias, o tempo de vir ao escritório buscar a máquina foi suficiente para me bloquearem o caminho de volta. Tudo o que consegui foi ouvir carros de bombeiros e policia a buzinar de um lado para o outro e um cheirinho de gáz lacrimogénio nos olhos, mas como já o apanhei no fim, foi fácil escapar. Os autocarros estão parados, ou talvez meia cidade esteja parada para protestar e também ajudar a fazer violência. Eu não tenho como chegar a casa hoje, mas tudo bem. Só é pena pensar que se faz história atrás de mim e eu nem uma televisão tenho para olhar.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

ELA

Quero tocar-te, tocar-te sem que quase o sintas, suavemente, em baixo, de baixo para cima, em cima. Os teus olhos estão fechados, saboreias os meus movimentos. Sentes-te bem, muito bem, mas quase não sentes que te estou a tocar. Depois eu também fechava os olhos, continuava a tocar-te e deixava cair a minha cabeça sobre a cama, a tocar-te de forma a que quase não o sentisse na ponta dos dedos, suavemente. Suavemente a minha cabeça deslocava-se e parava pertinho da tua. Os teus cabelos misturavam-se com os meus. Depois, juntinhos, os nosso lábios adormeciam felizes.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

PILISSZENTLASLO

PILISSZENTLASLO



A falta de tempo tem-me mantido longe deste espaço. Gostava de escrever muito sobre o meu último fim de semana, mas a cabeça já me está a pesar, mesmo assim, vou tentar. Na verdade fiquei fora de Budapeste durante cinco dias, quando voltei tive a sensação de ter estado fora durante três meses. Por outro lado estou em Budapeste à três meses e parece que cheguei à cinco dias. Há coisas que não sei explicar, simplesmente são assim. O EVS Clube é um encontro e treino para jovens voluntários e foi o que me fez mover de Budapeste para Pilisszentlaslo, uma pacata vila a norte da capital húngara e a escassos quilómetros de Szentendre. Além de ter trocado experiências com outros jovens de 13 países diferentes, o treino, o descanso e a simples liberdade que lá senti, fizeram-me estraordináriamente bem ao espirito. Perguntaram-me se me considerava como que um ”representante” de Portugal no meio de ”representantes” de outros países. Respondi que não, de maneira alguma, mas que no fundo gostava de perceber, em cada um deles, a imagem e a cultura dos seus respectivos países. Falámos sobre a Arménia e os seus costumes, reparámos que somos diferentes, mas que não é dificil respeitármo-nos. Falámos sobre as regras do Alcorão, descobrimos que alguns de nós não conseguiriam viver atados a ele, mas que podemos partilhar aventuras ou conversas com aqueles que o fazem. Tentámos partilhar tradições na cozinha, fui incapaz de comer o prato polaco que me tentaram oferecer. Mas a tortilha espanhola feita por um dinamarquês estava deliciosa. Encontrámos diferentes caminhos durante as actividades que desenvolvemos, mas acabámos todos por conseguir o que foi proposto. Sempre tentámos e conseguimos encontrar o balanço ou o ponto ideal quando as diferentes ideias apareciam devido as nossas diferenças socio-culturais. Por vezes sentia-me como um menininho a brincar e ao mesmo tempo a crescer, outras vezes sentia-me simplesmente um menino, não interessava se estava a crescer, estava lá e a atmosfera, o cheiro, os sons eram saudáveis e ao mesmo tempo puros e inocentes. Foi bastante bom perceber que todos conseguimos descer e subir juntos, e não interessa se somos diferentes, o que importa é sabermos ser diferentes.

SZENTENDRE

SZENTENDRE - 02 SETEMBRO, 2006

terça-feira, 8 de agosto de 2006

OMAR, O ISLÃO E OS GYROS

Omar nasceu na Bélgica, é filho de um marroquino e de uma francesa. Conheci-o há poucos dias em Budapeste durante a sua visita turística à capital húngara. Não é que eu fale melhor que ele, mas o seu inglês com sotaque francês origina-me umas valentes risadas, não são maldosas, são apenas risadas de puto. Risadas de putos que facilmente encontram razões para o fazer. Tento sempre escapar-lhe, e muitas vezes consigo. Não é que não me saiba bem ter risadas de puto, até pelo contrário, mas por razões claras, neste caso, tento evitá-las. Omar vive em Bruxelas desde a sua nascença, todavia as relações com o Alcorão e com a religião muçulmana são bastante fortes. Omar aprendeu árabe na Bélgica, utiliza-o diáriamente na comunicação com o seu pai e visita Marrocos todos os anos. Apesar da sua vontade em conhecer uma discoteca húngara e talvez dar um pézinho de dança com uma das meninas bonitas da zona, acabámos mais uma vez por optar por um dos clubes ”underground” de Budapeste. Entretanto, já lá, ficámos ambos com fome e lembrei-me que podiamos comer um ”Gyros”, ele achou boa ideia e fomos. Disse-lhe ainda que aquele ”Gyros Büfé” era o melhor que eu conhecia em Budapeste. Pedi o meu. Enquanto a empregada o preparava, o Omar perguntou-me se a carne era de porco. Já tinha comido aquilo algumas vezes, mas não lhe sabia responder. Tentou perguntar à empregada, ela nem sequer o entendeu. Acabou por pedir o mesmo que eu. Andámos novamente em direcção ao clube de onde tínhamos vindo. Acabei o meu ”Gyros” e reparei que ele guardava o dele sem prácticamente o ter trincado, primeiro pensei que o estivesse a guardar para o saborear sentado e com mais calma. Mas com um leve suspiro, ele voltou-se para mim e disse: ”É porco”… Só então percebi o que se passava. No Islão o porco é alimento proibido. Foi a primeira vez que comi dois ”Gyros” seguidos. Agora prometi que só daqui a alguns dias (ou semanas) os voltarei a comer. Senti-me um bocado culpado e disse ao Omar que o poderia levar a outro sítio e esperar por ele. Ele achou que aguentava mais um bocado. Como recompensa prometi que da próxima vez iria com ele a uma discoteca.