Páginas

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

HÁ VIDA NOS GHATS

VARANASI



Não existem muitas nações que conseguem preservar a sua história e tradição com tamanho carisma como a Índia o faz. Hoje, tenta-se encontrar espaço para que a sociedade moderna consiga penetrar e partilhar o mesmo lugar com a tradição indiana, repleta de misticismo e rituais que têm atravessado gerações e gerações. Viajar na Índia é viajar dentro da própria história sem que seja necessário abrir a porta do museu. Se existem poucos lugares com o carisma da Índia, menos ainda são os que podem ser comparados à cidade de Varanasi, o coração e casa maior do hinduísmo. As margens do sagrado Rio Ganges oferecem uma interminável paisagem de acontecimentos, não existe nada que não se possa ver ou imaginar acontecer nos seus Ghats, que são as escadarias que terminam nas águas do Ganges. Para quem visita Varanasi, uma das mais marcantes e fortes imagens é a passagem pela “Manikarnika Ghat”, onde todos os dias, quase continuamente, são cremados centenas de corpos para que assim seja efectuada a definitiva purificação do falecido. As cinzas são depois atiradas ao rio. Existe um número significante de hindus que se deslocam para Varanasi e ali ficam à espera do último dia das suas vidas para que depois lhe seja concedido este digno ritual fúnebre, na sua maioria mulheres viúvas que após o falecimento do conjugue vivem o que resta da sua vida à espera do fim da mesma, segundo determina e manda a sua religião. De resto, muitas são as diferenças entre o homem e a mulher na Índia, quase sempre com desvantagem para a mulher. Varanasi oferece-nos momentos que nos podem fascinar tanto pela positiva como pela negativa, é sem dúvida um lugar que não deixa ninguém indiferente. Entre simples crentes, que vêm as margens do rio para a “Puuja” (reza dos hindus); Sadus, os homens sagrados que se maquilham e vestem exuberantes e coloridas roupas; Vendedores ambulantes; Barqueiros e massageiros que a todo o custo procuram turisto-clientes, aparecem crianças, vindas de todos os lados tentando ganhar o seu sustento com moedas perdidas dos bolsos dos turistas. O trabalho infantil é um dos grandes problemas da Índia, apesar da recente lei que proíbe o trabalho a menores de 14 anos, pouca ou mesmo nenhuma fiscalização impede que tal lei seja colocada definitivamente em prática. São muitas as crianças, que sem outra forma de sustento, são obrigadas a cair na rua para tentar ganhar graças de um turista que passa, ora vendendo souvenirs, ora arrastando um turisto-cliente para uma qualquer loja de têxteis, ganhando com isso uma pequena comissão. Utilizam as mais diversas formas de aliciação e é assustadora a forma como tão pequenas crianças falam (em bom inglês) e actuam perante os turistas. Varanasi oferece tanto, mas não exige menos, e uma mente não suficientemente preparada para a sua poderosíssimo essência poderá estragar o fascínio e misticismo que ela tem para oferecer. Varanasi talvez seja um daqueles lugares que ou se adora ou se odeia. Se houvesse uma pessoa com quem eu mais gostaria de partilhar as emoções que ficaram sobre a visita a Varanasi, essa pessoa seria o meu amigo Eugénio Gaspar a quem, em parte, devo esta viagem, valorizada com as tão boas indicações que me deixou antes de partir.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

ILHA DE DIU

DIU



Diu, tal como Damão e Goa, foi colónia portuguesa durante mais de 400 anos. Esta pequena Ilha com cerca de 11 por 3 km de distância situa-se perto da costa central indiana, no Mar Arábico, a sul do estado de Gujarat e tem ligação com o restante continente através de uma pequena ponte. Em 1961, após algumas tentativas de acordo falhadas entre o governo indiano e o português (liderado por Salazar) para entrega da Ilha à Índia, o exército indiano ocupou Diu, tornando-a seu território. A minha visita a Diu foi inesperadamente saborosa. Para além de encontrar comida que me possibilitou fazer uma valente pausa dos fortes temperos indianos, encontrei ainda muitas outras coisas que me fizeram ficar com bonitas recordações deste lugar. Pela primeira vez estive tão longe de Portugal com oportunidade de sentir uma valente aragem lusitana, a herança deixada em Diu não passa despercebida, ao longo de toda a Ilha é fácil encontrar vestígios da estadia portuguesa, nos nomes das Ruas, as Igrejas, Conventos, o Forte de Diu e os alguns descendentes indo-lusitanos que teimam em deixar vivas as marcas. O português continua a ser usado, mesmo pelos mais pequenos. Um comerciante, ao perceber que eu me aproximava do frigorífico da sua pequena loja, perguntou-me em português “Água fresca?”, mesmo antes de saber se eu o entendia. Então depois de descobrir que estava ali um Tuga de raiz, puxou um banco para me deixar confortável e começou a dar corda à garganta. Durou até eu dizer que estava cansado e que precisava de dormir. Foi muito importante e agradável conhecer e falar com estas pessoas e perceber o quanto estimam um país que influenciou a sua existência, mas que muitas delas nunca tiveram o privilégio de visitar. Falei com o Sr. Isaac que não gosta de Fado e me perguntou se tinha Tango ou Valsa para lhe gravar. Mas foi com a mãe do Sr. Isaac que o suspiro lusitano me atacou com mais intensidade, senhora já na casa dos setenta, contou que se não fosse o Sr.Isaac estar prestes a sair-lhe da barriga, também ela tinha fugido para Portugal em 61. Num jeito muito calmo e ao mesmo tempo tresloucado, contou-nos como se recorda dos tempos em que a Ilha era governada pelos portugueses, e o quanto o governador era atencioso para a povoação, tão atencioso que quando era chamado devido a algum problema, ele próprio se deslocava a casa das pessoas para saber do que se tratava. Quase de lágrimas nos olhos, disse-nos ainda como se recorda do barulho das bombas com que os indianos expulsaram os portugueses em Dezembro de 1961. Eu tenho pena de apenas ter tido oportunidade para ouvir e não falar/perguntar, uma vez que a audição da mãe do Sr. Isaac já não a deixa aventurar-se em grandes conversas. Um pouco por cada canto lá fui encontrando formas de matar algumas saudades de casa. Diu é completamente diferente dos outros lugares que tinha antes visitado na Índia, muito mais calmo, limpo e socialmente melhor organizado, talvez seja do número reduzido de população, em relação aos outros lugares, mas também não posso deixar de acreditar que a influência portuguesa tenha sido fulcral na construção daquele lugar. O dono de um dos restaurantes que frequentei deu-me como razão para a passividade da Ilha, as regras vigentes aquando a governação portuguesa. Disse-me que isso permitiu uma relevante organização social e também cultural, como prova temos a taxa de alfabetismo de Diu, que está bem acima da média indiana. Para acabar e aproveitando tamanha passividade, porque não alugar uma scooter e tentar descobrir os mais escondidos recantos da Ilha, foi o que fizemos e muito bem!

sábado, 18 de outubro de 2008

O AMOR É DEPOIS



Indiana: “Não gostas de mim, pois não?”
Indiano: “Nós só estamos casados há três dias, ok?”

Na Índia, faz-se primeiro o Casamento, e só depois deve vir o Amor.
E é mesmo assim. Não é só nos filmes.

Do filme indiano FIRE de Deepa Mehta.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

AMAR E O TÁS MAL

AGRA



E zás, já fomos picar o cartão ao Tás Mal... Turista que é turista jamais deixa a Índia sem visitar o Tás Mal. As fotozinhas da praxe e pronto, já está! O Tás Mal é mesmo uma coisa bonita de se ver, de qualquer forma tenho dúvidas (muitas) se é mesmo a mais impressionante construcção que já vi. Fora isso tentámos dar-nos bem com Agra, mas nem por isso conseguimos. É uma cidade muito suja, mal cheirosa, desorganizada e muito cara se comparar com os outros lugares que já visitei na Índia. Em Agra é mais difícil negociar os preços porque a procura é suficientemente grande e os comerciantes nem sempre se importam de não fazer negócio. Não foi mesmo fácil sentir conforto em Agra. E não fosse o Taj Mahal, e o Forte de Agra (que é muito bonito também), não valeria mesmo a pena visitar Agra. Perdoem-me se estou a ser mauzinho, mas Agra (cidade) não me ficará na memória por bons motivos. Diria mesmo que o Tás Mal estaria melhor noutro lugar. Pela primeira vez aceitámos apanhar uma cycle-rishaw (bicicleta-táxi), cujo seu condutor se chamava Amar e tinha 13 anos. Para mim foi algo especialmente estranho aceitar dar trabalho a uma criança, que deveria estar na escola e não a trabalhar desde que o sol nasce até que caia a noite novamente (todos os dias), ele contou-nos que a sua vida era assim mesmo. Estar ali com o Amar significava mais para mim do que apenas a requisição dos seus serviços, era um miúdo que ali estava a governar-se no mundo dos grandes. A caminho do Forte de Agra, fomos trocando de vez, ora pedalava ele (nas zonas com mais trânsito e cruzamentos), ora pedalava eu em rectas mais longas ou estradas mais calma. Dividimos assim o esforço e foi para mim divertido conduzir a cycle-rishaw. O Amar falava excepcionalmente bom inglês, dominava completamente as palavras e as frases que frequentemente utilizava com os turistas, no entanto mostrava algumas limitações quando tentávamos falar acerca de outras coisas que não as coisas a que ele estava habituado a falar. Sobre a escola por exemplo, sempre que eu falava na escola ele ficava sem palavras para me responder. Quando chegámos ao Forte, o Amar, de imediato perguntou quanto tempo demorávamos na visita porque queria ser ele a levar-nos de volta para outro lugar e assim ganhava mais dinheiro. Não respondi, mas perguntei-lhe se ele já tinha visitado o Forte, ele disse que sim, mas foi um sim muito envergonhado e logo topei que não era verdade. Convidámo-lo para vir connosco mas ele teimava em não aceitar. Por fim, depois de algumas tentativas, lá aceitou, acho que só aceitou porque eu lhe disse que se ele não viesse connosco, podia ir-se embora porque nós não voltávamos a sentar-nos na sua cycle-rishaw. Lá nos acompanhou, não sei se lhe deu grande prazer visitar o Forte e estar rodeado de pessoas “diferentes”, de pessoas que não as do seu “nível social”. É incrível como na Índia ainda existe tamanha diferença no que diz respeito a classes sociais. É verdadeiramente triste ver como as pessoas se tratam de diferentes formas consoante a sua classe social. Então foi assim que fomos quebrando algumas regras e fizemos do Amar o nosso amigo especial que nos acompanhava na visita ao Forte de Agra. Foi logo estranho à entrada, por entre alguns comentários e expressões de espanto, o segurança lá nos deixou entrar com o Amar, mas claro, tivemos que explicar mais do que uma vez que ele era nosso amigo e que nos acompanhava. Já dentro do Forte um outro segurança chegou junto do Amar e pegou-lhe no braço perguntando o que ele ali estava a fazer, eu cheguei-me atrevidamente e perguntei por que razão é que ele segurava no Amar pelo braço e porque que razão ele estava a perturbar a nossa visita ao Forte. O segurança tratou de falar em hindu só para o Amar perceber, num tom invisivelmente rude que quase não nos possibilitou perceber muito bem o que ele queria mesmo, depois percebemos que o tentou intimidar dizendo que ele não podia estar ali. Eu continuei a insistir a perguntar qual era o problema dele e porque não podia o Amar estar ali connosco. Por fim o segurança deixou-o pois o estatuto do turista na Índia é respeitado e a minha teimosia foi suficiente. Já o pequeno Amar, com os seus 13 aninhos, não poderia visitar o Forte se não estivesse connosco. Senti-me saudavelmente bem ao quebrar um pouco do que são estas retrógradas regras indianas. Eu olhava para o Amar e só conseguia ver ali uma criança, todavia ao longo da nossa visita ao Forte muitas pessoas nos olharam com ar de admiração e adivinho que perguntavam a si mesmas “O que está aqui a fazer este da classe dos pobres”, ou algo de muito parecido. O Amar não estava bem vestido, mas também não estava mal vestido. Mais importante, o Amar ainda é uma criança, mas aqui na Índia isso ainda pouco importa.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A CIDADE BRANCA

UDAIPUR



Aquilo que tinha lido antes de partir já me havia deixado convicto de que Udaipur tinha tudo para nos proporcionar uma estadia em grande, e isso aconteceu mesmo. Posso ainda dizer que superou as minhas melhores expectativas. Depois destes dois dias voltámos a Jaipur com uma enorme satisfação e ainda mais vontade de saltar para a rua à descoberta da Índia e das suas gentes. A viagem entre Jaipur e Udaipur (a Cidade Branca) foi relativamente longa, cerca de nove horas (já a contar com os atrasos), mas até se fez bem... a dormir! Não é que tenha conseguido dormir a noite toda, mas o suficiente para sair da estação de Udaipur com vontade de, imediatamente, me meter a andar cidade dentro. Logo à partida me pareceu um lugar bastante tranquilo, com pessoas tranquilas e onde definitivamente se poderia encontrar interessantes pontos de aprendizagem sobre a realidade indiana, sobre o Rajastão, os hindus, ou de uma forma geral, sobre o que vai na mente daquelas pessoas com quem nos cruzávamos na rua. Senti alguma facilidade em comunicar, não sei se será mesmo do lugar ou se foi simplesmente pura coincidência, não sei, mas acho que também não importa agora saber. A verdade é que isso me deu a oportunidade de “penetrar” um pouco mais no universo dos indianos, partilhando (sempre recebendo mais que dando) ideias e formas de lidar com o que nos rodeia, formas de lidar com a Vida. Não sei se devo dizer que os indianos têm uma estranha forma de lidar com a vida, não! Acho que devo apenas dizer que a forma deles é diferente da forma de um europeu tipo (a outra única forma que posso dar como termo de comparação). Não querendo colocar toda a imensidão de uma Europa num só saco, acontece que desde que cheguei à Índia é com alguma naturalidade que durante uma qualquer conversa pode saltar algo do género: “Na Europa... Isto. Na Europa... Aquilo.” Se calhar quando eu for a Marte vou contar aos marcianos que nós aqui no Planeta Terra... Isto. Ou nós aqui no Planeta Terra... Aquilo. Quando penso desta forma, julgo que no fundo existe algum excesso de simplicismo e que da próxima vez deveria tentar falar em nome de um português e não de um europeu. Mas também lá no fundo algo me diz que é mais fácil falar em nome da Europa. Talvez o melhor seja tentar alternar entre os dois. Voltando a Udaipur... Começamos pelo Palácio da Cidade e decidimos comprar os serviços de um guia turístico, privado, mas a um preço bastante convidativo (dois euros e meio). A visita durou hora e meia e aqueles dois euros e meio não podiam ter sido melhor aproveitados, além da eficaz explicação em redor de algumas histórias e curiosidades do Palácio, conseguimos ainda ter uma interessante perspectiva de como um indiano (formado) olha para o seu próprio país. Conhecemos depois o Naru que me tentou ensinar a tocar Ravanhattha, acho que sem grande sucesso. O Naru não sabia ler, e mal me conseguiu escrever o seu nome, talvez “Naru” seja a forma mais simples e na verdade o seu nome seja bem mais complicado do que um simples “Naru”. Mas o Naru falava algum inglês o que me fez ficar ali sentado durante algum tempo. Falou sobre si, sobre a sua Ravanhattha e algumas experiências com outros estrangeiros que por ali paravam. No final tentou que eu lhe comprasse a Ravanhattha, e como eu fui dizendo que não, ele disse que também podia trocar a Ravanhattha por telemóvel ou câmara fotográfica. A Ravanhattha é um instrumento simples, de cordas, basicamente usa-se sempre a mesma corda, apesar de ter mais umas quantas que quase só servem para enfeitar. Ele disse-me que às vezes as usa, mas que é raro. A vida do Naru é fazer Ravanhatthas para tentar vender aos turistas. Outra memória que certamente vai ficar comigo é a da minha primeira experiência (talvez última, não sei) como participante na “Pooja”, a reza dos hindus. Todos os dias o ritual se repete nos seus templos, o cenário é agradável, os cheiros a jasmim misturam-se com outros aromas de incenso a queimar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O LAGO SAGRADO E O DEUS BRAMA

PUSHKAR



O fim-de-semana levou-nos até à pequena cidade de Pushkar, conhecida por ser um lugar extremamente religioso, onde, quase a cada esquina, se pode encontrar um templo hindu. Mas o grande símbolo de Pushkar é o seu lago sagrado. Os rituais nas suas margens são muitos e a cada instante se pode ver o quanto aquela água é respeitada e adorada pelos indianos. Avisos espalhados algures nas enormes escadarias que envolvem as suas margens, dizem que só se pode estar a menos de 40 “pés” da água se se estiver descalço, caso contrário pode ser levado como um sinal de desrespeito para com o hinduísmo. Pushkar é um lugar aparentemente calmo, todavia não posso dizer que assim mesmo o seja, pois a sua calma aparente pode ser, por vezes, quebrada pelos pedintes de rua, que esperam os forasteiros para misturar a sua fome de moedas com a venda de rituais religiosos que, nas suas palavras, devem ser seguidos como sinal de respeito pelas suas tradições, no entanto facilmente se percebe de que, a eles, pouco importa a tradição ou o nosso devoto e respeito pela sua religião, ali são as moedas que comandam a operação. De qualquer forma existe sempre forma de os contornar, não será devido a deles que uma visita a Pushkar deixa de ser agradável. De entre todos os mais de 400 templos que fazem de Pushkar o lugar da Índia com mais templos por metro quadrado, existe um que me parece especialmente importante, pelo facto de ser o único na Índia dedicado ao Deus Brama. Segundo o hinduísmo, Brama (o criador) teve como tarefa a criação do Universo e do ser vivo, sendo que essa função há muito foi cumprida e talvez por isso, apesar da sua reconhecida importância, poucos hindus o têm como referência. A mim parece-me um Deus um tanto ou quanto injustiçado, depois de tamanha tarefa merecia talvez um pouco mais de atenção, mas no fundo até compreendo, se eu fosse hindu talvez também daria maior importância, por exemplo, ao Deus da sorte e da boa fortuna, ou ao Deus da energia, não sei, digo eu assim por alto. Na verdade pouco sei sobre o que pensam os hindus acerca de Brama, talvez até esteja enganado no que digo. De resto as ruas de Pushkar são divertidas, muita música, muitas lojas e restaurantes vegetarianos. Em Pushkar não se bebem bebidas alcoólicas, nem se comem comidas que não sejam vegetarianas. E claro, também aqui as vacas fazem o que querem, onde querem!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

INCRÍVEL ÍNDIA

INDIA



Índia, Índia... Incrível Índia, como muitas vezes vejo algures por aqui escrito e que também muitas outras vezes me apetece repetir em jeito de desabafo, simplesmente porque de facto, a Índia é um lugar incrível. Jamais esquecerei o dia em que, ainda mal acordado e acabado do saltar da confortável cadeira do Boeing 777, troquei os meus euros por rúpias, sem nunca antes me ter dado ao trabalho de ver com o quê se parece uma nota indiana. Saí do aeroporto, porta fora, em direcção ao coração de umas das maiores e mais caóticas cidades do Mundo, Nova Deli. O cheiro; o calor tão diferente, sufocante; as pessoas; o barulho; a vertiginosa desordem que ali me invadiu (ou eu a ela), logo após o primeiro passo no exterior do aeroporto. Tudo tão rápido, tudo tão confuso que foram necessários alguns segundos de concentração para que aquela minha figura de turista inocente, desorientado no meio da ameaça do caos, pudesse, por fim, desaparecer da minha imaginação. Pensei por momentos se estaria mesmo preparado para, tão de repente, enfrentar tamanha novidade. “Yes, Sir!... Come!... Where you going?... Come with me!... Please enter… Sir… Yes… Come Sir!”, Na verdade não estaria mesmo preparado para absorver tudo o que naquele momento se passava à minha volta. Acabei por “cair em mim” quando já estava sentado num dos táxis que faziam espera perto da porta principal do Aeroporto. No táxi olhava à volta, não conseguia ver tudo quanto queria, o condutor guiava muito depressa e havia tanta coisa para ver que um simples piscar de olhos me poderia afectar o momento. Esta primeira viagem que me levou para dentro de Deli parecia uma alucinação, uma autêntica cena de cinema que nunca antes tinha sentido e nem imaginei que iria sentir. Aos poucos, a adrenalina foi baixando. Quando chegámos a paragem de autocarros (com destino a Jaipur), o meu instinto “duvidador” actuou pela primeira vez, aquilo parecia tudo menos uma garagem de autocarros. Por fim, vi que era mesmo o lugar certo, pedi desculpa e agradeci ao taxista, que prontamente aproveitou para pedir uma gorjeta extra. Eu recusei, ele insistiu. Eu recusei pela última vez e virei-lhe as costas. Hoje, passada uma semana e alguns dias desde a minha chegada, já consigo perceber um pouco melhor sobre como estar no dia-a-dia da incrível Índia: continuo a olhar para as coisas com os olhos muito abertos e fascinados, mas já não me parece uma cena de cinema; continuo céptico, mas já sei que muitas coisas podem não parecer o que são. E tantas outras coisas que já aprendi, simplesmente tendo a incrível oportunidade de as viver. Seja quem for, aconteça o que acontecer, a Índia, só pode ser para alguém a Índia, quando esse alguém tiver a oportunidade de viver o seu cheiro; o seu calor; as suas pessoas; o seu barulho e o seu silêncio; a sua desordem e a sua paz. Antes disso, a Índia não poderá ser mais do que aquele lugar que todos (ou quase todos) têm como sendo um lugar “Incrível”, não podendo no entanto imaginar o verdadeiro significado do adjectivo.

sábado, 30 de agosto de 2008

ÍNDIA

JAIPUR



Na Índia, a exploração de trabalho infantil afecta muitos milhões de crianças. Crianças a quem não é concedido o direito de brincar, nem estudar. Muitas vivem na rua. E assim continuamos tão distante uns dos outros.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A NOVA VARSÓVIA

VARSÓVIA



É inevitável estar-se em Varsóvia sem se imaginar o quanto poderá aquela cidade ter sido desfeita. Não sei se seria melhor pensar que tudo ali era normal, que aquele sitio não tinha sido vítima de uma das maiores destruições urbanas de que reza a história, se não a maior. Mas é mesmo inevitável, e a cada rua descida, a imaginação assaltava e tornava-se difícil olhar para a Varsóvia de hoje. No entanto, tudo estava apenas na minha cabeça, de facto, a Varsóvia de hoje é uma cidade que parece ser como tantas outras que foram crescendo, crescendo sem interrupção. Uma cidade que parece nada ter haver com a história da outra que os alemães decidiram matar. Infelizmente a minha visita resumiu-se a alguns poucos passeios, não os suficientes para ter uma ideia relativamente bem formada acerca da sua vida. Desde a estação até entrar avenida Marszałkowska tivemos apenas tempo de olhar alguns minutos para o enorme Palácio da Cultura e da Ciência, talvez o edifício mais relevante da cidade. Logo ali na esquina entre a rua Jerozolimskie e a Marszałkowska estende-se a imagem de uma “Piccadilly” à moda de Varsóvia, um pouco mais abaixo chegámos ao local que nos abrigou durante os dois dias de estadia. Os passeios entre o Hotel e a cidade velha eram agradáveis, o grande desafio era escolher em qual dos restaurantes entrar para a devida e saborosa pausa entre os passeios. Irónicamente, aproveitei os dias na capital polaca para descansar um pouco e na verdade consegui. Não encontrei uma Varsóvia tão inquieta como me tinha explicado, pelo contrário, encontrei uma cidade bastante relaxada. Acho que devo um pedido de desculpas à cidade pelo facto do meu espírito de explorador ter estado muito em baixo, assim terá que ficar prometida uma nova visita à capital polaca.

domingo, 25 de maio de 2008

AND MY VOTE GOES TO…

Finally, I decided to write here using English words, sorry for that! I couldn’t find such a better subject as the Eurovision Contest. In fact I still cannot really understand the point of this contest. After long time without watch such an event, I was wasting my time in front of the screen. Well, I cannot say it was a waste of time, cause till some point was even funny. I was just a little misled regarding to all the show drafting process. I admit that I feel sorry for those who decided to use the phone and vote the song they found as being the best. You know, this is not about music, damn... Far from that! That’s just a pretty place, where pretty people are showing off their pretty and clean clothes, full of colours and flowers if possible! Is just about the SHOW!

In the end there was a voting period! I can call that, a geographical voting period! Because no one was in fact interested in music! For example, Portuguese citizens (so, perhaps the emigrants) gave maximum points to Ukraine, great! Our highest income points came from Switzerland and France! You guess why? Well, I just can provide that if my country was situated in the middle of Europe and perhaps we could have a closer relation with our neighbours, and also maybe with many emigrants able to vote for us from different countries, I sure we would get to the top of the table easier! Anyway, I don’t want to mean that all this is a bad thing, maybe it is not, it just kind of pathetic in my humble opinion.

A part from all this lights and stuff, I wish people around could really listen to music and understand what they listen to, that would be great. Forget the contests! Music is not this, so, call everything you want to, but don’t use such a word, MUSIC does not fit here!

sábado, 3 de maio de 2008

BUDA E PESTE

Desci as escadas a correr, o sol está forte e posso usar a bicicleta. De dois em dois degraus chego à garagem, abro o cadeado e num instante já estou a correr a Dembinszky Utca (Rua Dembinszky) em direcção ao centro. Como sempre encontro pelo caminho o eléctrico número 76, também sempre sou mais rápido, ultrapasso-o e entro à frente na Wesselényi Utca. Mas desta vez não parei no número 26 do escritório da Fundação Planet e segui, sem deixar de pedalar, até à Deák Tér (Praça Déak). Estranhamente tinha saudades de respirar o poluído ar da Praça Deák. Parei, e depois de olhar o topo da Basílica de Santo Istvan e relembrar o quanto grande ela é, continuei sem sequer sentir o mais pequeno sinal de cansaço. Dali até às margens do Danúbio pouco passou e entre escolher a Ponte Margit e a Széchenyi, decidi-me pela segunda para chegar a Buda. Já lá, hesitei, mas acabei por me decidir em seguir o rio para sul, enquanto barcos flutuavam no “Duna” seguindo a mesma direcção, por instantes pensei que seria perfeito flutuar como eles, mas depressa percebi que não era o melhor, pois o seu flutuar é sempre despreocupado e sem pressas, e eu estava inquieto, queria esgotar a cidade o melhor e mais depressa possível. Depois de passar perto da Ponte Erzsébet e dos banhos Rudas, fiquei com o monte Gellért mesmo por cima de mim, quase me esquecia do quanto bonita é toda a área da cidadela. Continuei a pedalar, voltei a Peste pela Ponte da Liberdade e depois de atravessar o grande edifício do mercado cheguei à Kálvin Tér (Praça Kálvin), a vontade de beber o saboroso café do bar Monyo quase me fez parar, mas não, não parei e entrei na Rua Ráday... A Ráday rasga o turístico, mas não perde o charme de uma verdadeira rua budapestiana ainda significantemente alimentada por budapestianos em sintonia com os estrangueiros. Nunca tinha sentido tanta vontade de pedalar, nunca tinha sentido tanta vontade de ter os olhos tão abertos e olhar para todos os lados o mais que conseguisse. Cruzei uma das perpendiculares à Ráday e logo a seguir cheguei à enorme avenida dos eléctricos 4 e 6. Segui em direcção a Blaha Lujza Tér. Parei por momentos para equilibrar a respiração e tentar decidir o caminho a seguir. Não tive tempo... A porcaria do relógio nunca foi capaz de me transmitir boa energia, e às 8h30 tocou até eu lhe meter a mão em cima e despertar para mais um dia em que o sono e o sonho acaba vencido pela maldita força da rotina, que tão longe continua da minha vontade. Mais uma vez a imaginação e o sonho se desfazem antes que a verdadeira vontade se vingue.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

"NENHUM OLHAR" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO EM HÚNGARO

JOSÉ LUÍS PEIXOTO



É apresentada, no próximo dia 5 de Dezembro, a tradução húngara do livro "Nenhum Olhar" de José Luís Peixoto. Esta obra tornou-se como que a confirmação do escritor no seio da literatura portuguesa e internacional. Ganhou o prémio José Saramago e já foi também traduzida em várias línguas. Agora é a vez do húngaro. A edição está a cargo da Editora Europá. A cerimónia de lançamento tem lugar por volta das 17h no Centro Interuniversitário de Estudos Franceses e é organizada pelo Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Budapeste. Nesta cerimónia, os presentes, poderão ouvir e conversar com Miklós Nagy, chefe de redacção da Editora Európa, e com Mónika Bense, a tradutora. Serão também lidos excertos do romance em ambas as línguas. Em húngaro, o livro chama-se "Egyetlen Pillantás Nélkül".

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

NO TOPO DA EUROPA

FRANKFURT



À partida, Frankfurt é a cidade moderna, é a cidade cosmopolitana e bem colocada no topo das cidades melhor organizadas na Europa. Tudo isto é verdade. Mas a história também está lá. Römer é hoje a imagem da história da cidade, foi talvez aqui que os romanos fundaram a cidade no século I. Os belíssimos edifícios situados em volta da praça não escaparam às fúrias da Segunda Guerra Mundial, mas disso não resta qualquer sinal. Frankfurt é hoje o centro de alojamento financeiro da Europa, e na verdade, basta percorrer a comprida Berger Straße, repleta de lojas de todas as cores, formas e feitios, para perceber a força do poder de compra ali existente, ou nem é preciso ir assim tão longe. Frankfurt é saudável, é vida, recomenda-se!

sábado, 11 de agosto de 2007

OUTRA VEZ AQUI

SÃO PEDRO DE MOEL - AGOSTO, 2007



Sinto-me assim... Desconfortável, de cabeça para baixo, e com vontade apenas em ouvir o mar, que me soa bem melhor do que aquilo que tenho ouvido ultimamente. No entanto não quero ficar assim, com a cabeça para baixo, não vou ficar assim, com a cabeça para baixo.

terça-feira, 8 de maio de 2007

O BICA EM PESTE

CONCERTO



Ainda antes do meu não aguardado regresso a terras lusas, em Budapeste irei ter o prazer de mais uma vez assistir ao reunir do contra-baixo do Carlos Bica, da guitarra do Frank Möbus e da bateria do Jim Black. A tour do "Believer" passa pela Hungria, e se não me engano, será a primeira oportunidade para os magiares sentirem a mágica ressonância das cordas do Bica. É já dia 30 de Maio no barco A38, e quem está… está, quem não está talvez esteja num dos outros. A tour do "Believer" passa ainda na Alemanha, Austria, Suiça, Holanda e Portugal, estejam atentos.

Carlos Bica na Web:
www.carlosbica.com

segunda-feira, 30 de abril de 2007

BÓSNIA E OS REENCONTROS

SARAJEVO



A visita à Bósnia-Herzegovina marcou o meu regresso aos Balcãs, aos buracos, ao Burek e a um inesperado encontro. O país divide-se em dois estados, o estado de Bósnia e o estado de Herzegovina, Sarejevo é capital e situa-se no estado de Bósnia. Após o final da Guerra Fria, Sarajevo é agora uma cidade nova mas com muitas marcas das recentes brigas entre sérvios, croatas e bósnios. A diversidade religiosa é enorme, o islamismo é a aquela que aparenta ter mais poder, mas sendo a cidade fortemente habitada por sérvios, na sua maioria cristãos ortodoxos, e por croatas, maioritariamente católicos romanos, a estabilidade religiosa e o desenvolvimento económico-cultural deixa muito a desejar e a imagem que me ficou é que tudo está muito pouco organizado e as regras são poucas. No centro da cidade as pessoas pedem dinheiro, e junto dos mais adultos sempre se vêm também crianças esticando a mão na esperaça de receber uma resposta em troca, sinceramente fiquei com a ideia de que muitos deles nem sequer têm a noção do que fazem. Um rapaz, novito mas bem aparentado, de fato de treino e mochila da escola, completamente normalissimo, parecia ter acabado de sair da escola, e enquanto percorria o caminho até casa aproveitava para pedir dinheiro a todos aqueles que encontrava no caminho, fiquei com a nitida impressão que o fazia apenas porque havia crescido num mundo onde as pessoas o fazem, e fazem-no parecendo ser a coisa mais natural. E assim ele também fazia. E caminhando por entre as pequenas lojas de madeira do mercado central, os exemplos são muitos. Mas a minha experiência com dinheiros na Bósnia foi ainda maior. Chegámos num Sábado e sem pensar muito, apenas tinhamos na carteira forints húngaros, cedo percebemos que poderia ser um problema, todo o fim de semana não encontrámos quem nos aceitasse trocar forints por marcos bósnios. No Sábado conseguimos no hostel um empréstimo de 20 marcos, mas que pouco duraram (cerca de 10 euros), no Domingo previ dia dificil, andar ali sem dinheiro não era saudável e quase me senti obrigado a juntar-me aos outros na caça de alguns trocos. Mas por vezes as coisas são mesmo imprevisiveis e quando menos as espero, elas acontecem, ouço alguém chamar-me, de repente nem liguei, mas ouvi outra vez e para espanto meio, no meio de uma das ruas de Sarajevo encontro um colega conterraneo que já não avistava há muito. E mais palavras para quê! passado o espanto, seguem-se as cervejas e a tão preciosa troca de forints húngaros em marcos bósnios, a minha salvação na bósnia! Depois não podia deixar de aproveitar a ocasião para voltar a deliciar-me com o Burek, a semelhança da Sérvia, também na Bósnia o Burek é o forte da gastronomia e mais uma vez me babei por mais. Depois de me descalçar, entrei pela primeira vez dentro de uma mosquita, segundo li, a maior da Europa, à excepção das que existem na Turquia. Depois estivemos no local onde foi assassinado o arquiduque austro-húngaro e presumível herdeiro ao trono imperial dos Habsburgos, Franz Ferdinand. O assassinato marcou o arranque da primeira Guerra Mundial. De resto, foi bom subir um pouco de um dos montes que rodeiam a capital bósnia e olhar para o grande vale onde Sarajevo quis nascer.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

MURO DAS MEMÓRIAS

BERLIM



Escondidas numa Berlim agora completamente modernizada continuam as imensas memórias da actividade nazi, das guerras, da cortina de ferro. Escondidas ou nem tanto. Se por um lado me parecem, os berlinenses, querer fugir a tais antepassados, outros sempre haverão querendo neles entrar, e eu não pude deixar de o tentar fazer. Chegar, sentir o cheiro, sentir o palco de mil histórias da antiga alemanha que foram crescendo comigo e com certeza um pouco com todos nós, muitas vezes sem nelas pensar ou sem a elas dar muita importância. Ouvi falar de muitas histórias antes, mas agora é diferente, agora consigo quase sentir-me dentro delas, mesmo sabendo o quanto tudo mudou. Apesar dos anos que lá vão, dos montes de edificios apagados e dos novos que em seu lugar cresceram, do muro que já não existe, de uma Berlim de hoje completamente diferente do que era, apesar de tudo isto estando lá acaba-se sempre por sentir toda a energia e intensidade daqueles anos que teimam em não ser esquecidos ou posso dizer, nunca o serão. Entre Budapeste e Berlim ficam cerca de 900 km de estrada que atravessam 3 países antes de entrar a sul da Alemanha. Decidimos saltar para a estrada, esticar o dedo e esperar pela boa vontade dos condutores que passavam. O resultado, uma viagem longa, barata, e com algumas bons palmos de conversa com aqueles que pelo caminho nos partilharam o seu espaço. Gyor, Bratislava, Brno, Praga, Dresden e por fim a chegada. Em Berlim, o primeiro destino, casa da Kristina que nos deu um bocado do espaço do seu quarto durante estes três dias. Acabei por relacionar toda a vida e imagem do seu apartamento com as pessoas alemãs, sobretudo com a imagem que eu tenho das pessoas alemãs do pós-guerra. Esta realidade encaixou perfeitamente naquilo que meu imaginário havia criado. Tudo tão diferente, pintado, escrito, colorido... As pessoas, os cabelos delas, as roupas delas, tudo parece tão novo, tão aberto. Berlim é definitivamente uma cidade moderna, de mente aberta e onde as alternativas existem, Berlim não é uma cidade banal, Berlim é sem dúvida um lugar onde as ideias se sentem flutuar. Por outro lado, a Berlim de hoje deixou-me sentir um pequeno vazio, mas um vazio meu e egoista de quem quer saltar mais ainda para cima da história, ela estava lá, mas com o cenário completamente refeito, parecendo ter havido vontade de não deixar rastos de que algo se tenha ali passado. Mas sim, a cidade foi completamente destruida durante a segunda guerra e com certeza não há alemão que não tenha feito os possiveis para apagar qualquer vestigio da destruição. Há uma excepção, a Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche (a Igreja das Memórias), foi deixada tal como ficou após a invasão dos Aliados, daí o nome que tem. Em plena Los Angels Platz, a Igreja das Memórias faz frente aos mais variados e exuberantes estilos modernos que os edificios em sua volta ostentam, mas que acabam desvalorizados no meio de magestosa mostra da realidade da guerra. A poucos metros da Los Angels Platz fica o Zoologischer Garten e a estação que não poderia deixar de me fazer recordar Christiane F. Daqui metade a pé e outra metade no autocarro 100 e ficámos em frente ao Reichstag. Depois, um pouco mais, passamos o Brandenburger Tor e acabámos em Alexander Platz a imaginar a vista que se poderá ter do topo da Fernsehturm (a Torre de Televisão). Depois caminhamos na rua Kastanienallee ao largo dos imensos e diversos bares e lojas. Berlim vale pela diversidade cultural resultante de um povo "renovado" e de mente aberta. Kristina contou-nos algumas histórias sobre as suas (más) experiências com alguns Nazis, ainda existe uma relativa comunidade em Berlim contra quem, segundo a Kristina, a policia parece continuar a travar lutas. A nosso último destino foi Kréuzberg, antes ouvimos falar muito desta zona da cidade e não fomos embora sem visitar, infelizmente deu apenas tempo para uma cerveja ao ritmo da Bundesliga, um café ruidoso onde fanáticos de futebol dividiam apostas. Berlim é uma cidade bonita, não da mesma forma que Budapeste é, mas de outra talvez mais importante. O regresso à Hungria não foi tão fácil como a ida para a Alemanha, mas por fim lá chegámos a casa... Satisfeitos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

BIO-PROJECTO

Encontrei-os mesmo aqui ao lado mas o rasto vem da França e da Polónia. Os B.I.O Project estão agora a dar os primeiros passos. Depois do palco montado em Budapeste a brincadeira continua bem perto das suas raizes. Talvez um dia chegue a Portugal. Acho que vale a pena dar uma vista de olhos no recém nascido website www.bioproject.eu ou no myspace em www.myspace.com/thebioproject.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

O NATAL NA POLÓNIA

NOWA RUDA



Nowa Ruda é uma pequena e pacata cidade polaca situada já bem perto da fronteira com a República Checa. Um tanto ou quanto escura de inverno, mas com a felicidade de ter a seu lado a natureza dos campos montanhosos. Depois de alguns meses na cosmopolitana Budapeste foi bom voltar a respirar a terra e as coisas naturais que nela nascem. Este ano Nowa Ruda havia escapado à neve que habitualmente cai nesta altura, por isso só nas montanhas pudemos desfrutar da sua beleza. A neve não era muito densa, o que premitiu a nossa subida ao topo de um dos pontos mais altos da montanha. Não pude deixar de apreciar intensamente aquele cenário, um apreciar de olhos mediterrâneos, de olhos que não se habituaram a olhar mantos de flocos brancos nas árvores. Brincámos um pouco, não muito, pois o tempo escasseara e depressa tivemos que voltar a casa. Tudo porque as horas do jantar de natal na Polónia são bastante distintas das horas do jantar de natal em Portugal. Nunca antes havia passado a ceia natalícia fora de Portugal, ou melhor, fora da Marinha Grande. Foi interessante e muito especial olhar para as diferenças existentes entre as duas culturas. Todavia, na Polónia, assim como em Portugal, para além das prendas que se trocam, a comida é o mais importante no desfrutar deste dia. A grande diferença está nas horas. O nosso jantar começou por volta das quatro da tarde. Ás seis trocámos as prendas e ainda restou um tempito para descanso até que nos voltassemos a encontrar à meia noite na igreja da cidade para os cânticos natalícios. Disseram-me que é o único dia do ano em que a igreja fica repleta de fiéis. E estava sim, católicos ou não todos pareciam ter tido como destino da meia noite a igreja de Nowa Ruda. Não cantei. Subi as escadas para o andar de cima e fui ao encontro do organista. Fiquei ali por alguns minutos. Foi a primeira vez que vi o orgão grande de uma igreja e obviamente também a primeira vez que vi alguém tocar nele. Em Nowa Ruda bebi cerveja quente, como se fosse chá, quente mesmo. Quando me falaram pela primeira vez pensei que fosse brincadeira. Mas não, eles bebem mesmo cerveja quente. Eu também bebi e não me soube nada mal.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

UMA PARAGEM PELO CAMINHO

CRACÓVIA



Doze horas depois da partida na estação Keleti, chegámos a Cracóvia, a primeira paragem na nossa viagem até Nowa Ruda onde iriamos passar a nossa ceia natalícia. Demos os primeiros passos na capital cultural polaca ainda antes do sol aparecer. A cidade deserta, adormecida na noite e no frio de inverno que ainda assim continuava sem neve, algo anormal nesta altura do ano. Caminhámos até à praça principal e caminhámos já na praça principal. Ao redor da igreja Mariacki tivemos os primeiros sinais de que o dia estava a começar. Ás 6h em ponto escutámos a melodia do trompete que é tocado duas vezes por dia numa das torres da Mariacki. O som voava suavemente pela silenciosa praça misturando-se apenas com o cantar de escassos pássaros que pareciam ter acabado de acordar tendo como missão alertar-nos para o dia que ali nascia. Percorremos mais algumas ruas e atravessámos ao largo de um dos jardins da cidade. Chegámos ao castelo Wawel e dentro das suas muralhas visitámos a bonita catedral com o mesmo nome do castelo. À saída o dia parecia finalmente ter vencido a noite. Fomos ao distrito judeu e olhámos para algumas sinagogas do lado de fora. Ao almoço provei os primeiros pratos polacos num restaurante judeu. A sopa vermelha Barsz Czerwony é deliciosa, assim como o Pieróg Ruski também o é. Quando saimos do restaurante pouco mais restou. Uma caminhada de volta à estação para apanhar o comboio com destino a Wroclaw. Em Wroclaw apenas tempo para trocar de comboio e seguir para Nowa Ruda.